A campanha de Boulos e Erundina reconfigura o mapa dos possíveis

Campanha. Onda. Movimento. Caravana. Difícil é quem não esteja falando da campanha de Guilherme Boulos e Luiza Erundina para a prefeitura de São Paulo, embora a euforia ultrapasse, e muito, os limites da capital paulista. Tenho a impressão de que a mobilização em torno da candidatura está prestes a efetuar um corte na continuidade do nosso tempo político e isso não porque consolida um político em ascensão, e sim um processo político cujos efeitos ainda não sabemos a extensão, mas a sua força já nos afeta e transforma. O período eleitoral, enfim, tornou-se uma oportunidade de construção de formas coletivas de identificação e subjetivação políticas. É isso que noto em amigos, conhecidos e diversas pessoas implicadas na campanha ou, pelo menos, impactadas por um meme, uma proposta, uma entrevista do Boulos. O educador Paulo Freire, secretário de Educação de São Paulo na gestão de Erundina (1989–92), dizia que a esperança precisa ser aprendida, pois não é somente uma crença abstrata, e sim uma prática de naturalização da realidade. Se é isso que a campanha do PSOL está ensinando, é provável que, daqui em diante, o mapa dos possíveis esteja absolutamente reconfigurado.

Dentre as causas da paralisia da esquerda em anos recentes, está a opção pelo João Santanismo (a expressão é de Bruno Torturra) como meio de disputar eleições. As consequências, por sua vez, não se limitam às cifras milionárias, ainda envolvem a lógica de esvaziamento da militância — partidária e civil — na agitação e mobilização de recursos. Em lugar de olhar ao passado, a campanha de Boulos e Erundina está engendrando fluxos de mobilização que, ao menos desde Junho de 2013, pediam novos modos de existência, lideranças e alternativas institucionais. A imaginação política então se destravou e tão logo se criaram novas alianças e vínculos políticos — trabalhadores, artistas, intelectuais, estudantes ao lado de movimentos sociais, católicos, feministas e muitos outros — numa dinâmica que as memórias de Raquel Rolnik sobre a campanha que elegeu Erundina em 88: “a gente fez a campanha sozinhos, na rua, na base da militância de cada um fazer cartaz na sua casa, botar botãozinho, passar nos vizinhos… foi assim que a gente conseguiu os 30%”.

Uma mesma energia participou da mobilização do vira-voto em 2018 onde ensaiamos um primeiro exercício de cura da pulsão bolsonarista, como escreveu a deputada Áurea Carolina, em que “foi preciso sair da lamentação, assumir nossa parcela de responsabilidade e fazer algo que estava ao nosso alcance: dialogar abertamente com os outros”. Muita gente ironizou que a esquerda achava que ganharia a eleição oferecendo bolo ruim e café aguado às vésperas da eleição. Mas é o caso de dizer que agora o bolo é outro, o café é forte e a mensagem é mais propositiva do que reativa. Naquela altura, nosso discurso era frágil e pouco convincente porque, bem ou mal, uma retórica calcada no medo (o medo da ditadura, o medo do fim dos programas sociais, etc). No entanto, se a direita é forte em instigar pelo medo, não é esse o afeto que mobiliza nosso campo. Nas palavras de Vladimir Safatle, “o afeto que nos mobiliza é o da invenção, da confiança e da crença de que, apesar das dificuldades e das limitações, vamos conseguir criar algo melhor do que temos”. Através da campanha de Boulos e Erundina, os valores éticos da solidariedade — antítese dos afetos mobilizados pela extrema-direita — readquiram o apelo emocional e isso é decisivo porque, como as últimas derrotas nos ensinaram, não basta só que não sejamos atrozes e tiranos como nossos inimigos. Para além disso, é preciso que exerçamos as virtudes contrárias em igual ou maior medida.

É provável que essa seja a melhor campanha de esquerda desde a de Lula em 1989. Se o PSOL já vinha tentando utilizar memes nas últimas eleições, só agora esses são capazes de articular narrativas e discutir problemas concretos, o que fazem à medida que subvertem as referências do imaginário cultural e traduzem o compromisso ético sem o apego aos emblemas identitários que hipostasiaram a esquerda como um conjunto fechado de signos (palavras de ordem, cores, memórias, etc). A sua verdadeira força está em converter os princípios em propostas com ampla aceitação no senso comum — como a renda básica, passe livre, regulamentação dos apps de entrega, aumento de IPTU para mansões, etc — mas que ainda não tinham encontrado forma na gramática das disputas políticas.

Logo de partida, a convenção de lançamento da candidatura foi realizada em Campo Limpo, zona sul da capital paulista, em linha com a atuação do MTST de Boulos em regiões afastadas do Centro e da própria Erundina quando governou a cidade. Já ao longo da campanha, é certo que a pandemia impediu a mesma dinâmica de rua (comícios e manifestações) que marcou a campanha de Marcelo Freixo no Rio em 2016. Não é menos certo, no entanto, que a campanha superou isso nao só pelas vias digitais (memes, jingles, lives), mas com a recriação de automóveis — Celtinha, Komboulos, Erundinamóvel — cuja gambiarra e precariedade dos mesmos são tomadas como símbolos do invencionismo que vai caracterizar a gestão.

A importância da vitória de Boulos e Erundina também envolve a experimentação de mecanismos de governo em âmbito municipal que pode servir de modelo para os voos mais altos da esquerda num futuro próximo — razão pela qual as gestões locais devem ser tomadas como primeiro passo da renovação da esquerda. Como afirmou Tatiana Roque, “esse tipo de construção na esquerda tem uma longa tradição na história do PT, que começou a ocupar governos locais e a se distinguir por um modo singular de governar, o modo petista de governar”. Ao lado de Olívia Dutra (Porto Alegre) e Victor Buaiz (Espírito Santo), petistas também eleitos em 88, a gestão de Erundina em São Paulo se tornou referência de aprofundamento da democracia através de mecanismos como Orçamento participativo e os Conselhos Municipais. No atual programa dos candidatos do PSOL, também encontramos propostas que envolvem instrumentos de democracia direta e economia solidária, ambas na direção de tornar a política mais participativa e menos representativa.

Ainda que não seja eleita, no entanto, a campanha de Boulos e Erundina suscitou o encontro da subjetividade individual e coletiva e os seus efeitos, por sua vez, não terminam agora. A respeito das ocupações do MTST, Boulos afirma que “mesmo quando a casa não vem e são despejados, há conquistas muito importantes, que marcam a vida daqueles que tiveram a coragem de se levantar e lutar por seus direitos”. O mesmo vale para a atual campanha, pois aqui está o embrião da nova agenda política da esquerda brasileira.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.