As duas faces da pequenez de Maia: a chance de Lira e o papel da esquerda

Semanas atrás, dificilmente alguém diria que Rodrigo Maia estaria em apuros. Se não bastasse ter sido o presidente da Casa mais longevo desde a redemocratização, Maia liderou a Câmara no mesmo momento em que essa preencheu o vácuo de poder em Brasília deixado pelo presidente Jair Bolsonaro. Não à toa que o próprio Maia foi apelidado de “primeiro-ministro”, aproveitando o embalo para aprovar as emendas parlamentares impositivas que garantiram uma autonomia inédita aos deputados.

Globo da Morte (2008) de Tatiana Blass.

Seria normal, portanto, esperar que Maia elegesse seu sucessor se não fosse a política traiçoeira, embora parte disso seja sua própria culpa.

Em primeiro lugar, Rodrigo Maia confiou demais que o Supremo reconheceria a hipótese de reeleição dos presidentes do Congresso. Gilmar Mendes até ensaiou a jogada, mas Barroso, Fachin e Fux voltaram atrás após a pressão popular que desmoralizou os anseios poucos republicanos de Maia e Alcolumbre. Os dois ficaram a ver navios e o favoritismo foi por água abaixo já que deixaram de organizar a sucessão enquanto as canetas possuíam tinta.

Além disso, Bolsonaro entrou de vez na disputa pelo Congresso. Antes, ligado ao mote da antipolítica que integrou sua plataforma eleitoral, Bolsonaro se valia das derrotas no Legislativo para reforçar o mito do salvador acorrentado e refém das instituições corruptas. As oscilações de popularidade e as investigação sobre a famiglia, no entanto, viraram essa chave e o presidente se viu premido a atenuar eventuais processos de impeachment ou CPIs, o que induziu a associação ao chamado Centrão.

Bolsonaro sabe que a eleição do presidente da Câmara é decisiva, afinal, ele assistiu à queda de dois ex-presidentes que não eram aliados dos respectivos comandantes da Casa — Fernando Collor (PRN) não apoiou a eleição de Ibsen Pinheiro (PMDB) e Dilma Rousseff (PT) desafiou Eduardo Cunha (PMDB) antes de cair. Para justificar o apoio anti-antissistêmico a Arthur Lira (PP), que não é outra coisa senão estelionato eleitoral, Bolsonaro passou a dizer que a aliança com partidos como PP, PL, PSD e Republicanos é que permitiria o avanço de pautas como o excludente de ilicitude, a flexibilização das armas, o voto impresso, as novas regras de regularização de terras, etc. O que vimos nas últimas semanas foram políticos se dirigindo ao Planalto para negociar cargos e emendas parlamentares em troca do apoio ao candidato governista — se esse fracassar, será o terceiro fiasco consecutivo de Bolsonaro após a derrota de Trump e o desastre do bolsonarismo nas eleições municipais.

Importa saber que num Legislativo centralizado e hierarquizado como o nosso, o presidente da Câmara usufrui de poderes concentrados, a exemplo da nomeação dos membros de comissões e especialmente o poder de agenda. Rodrigo Maia, com efeito, soube utilizá-lo para barrar uma série de iniciativas polêmicas do governo federal, as mesmas que muito provavelmente serão postas em discussão caso Arthur Lira seja eleito. As mesmas iniciativas, melhor dizendo, com potencial de abrir a caixa de pandora da sociedade brasileira com discussões carregadas de fake news, sentimentos regressivos e sugestões de fechamento do Congresso.

Rodrigo Maia anuncia a criação de bloco entre a centro-direita (DEM, MDB, PSDB, PSL, Cidadania e PV) e a esquerda (PT, PSB, PDT, PCdoB e Rede).

A esquerda acertou em abrir mão de uma candidatura própria para apoiar o nome escolhido por Maia desde o primeiro turno. Na última vez que o PP venceu uma disputa de presidência da Câmara, a vitória em 2005 ocorreu justamente porque a oposição se fragmentou em duas candidaturas que somaram 324 votos no primeiro turno, mas Luiz Eduardo Greenhalg (PT-SP) acabou derrotado no segundo turno contra Severino Cavalcanti (PP-PE).

Por outro lado, a esquerda deveria aproveitar a debilidade de Maia para arrancar alguns compromissos programáticos no momento em que o apoio da esquerda se tornou decisivo. Para se ter ideia, dos 257 votos que o candidato de Maia precisará para vencer no primeiro turno, a esquerda pode lhe garantir a metade desses (PT, PDT PSB, PCdoB, Rede e PSOL* somam 132 votos). Se não é a vez de lançar uma candidatura própria, tampouco é hora de abrir mão de marcar posição em defesa do Fundeb, do auxílio emergencial, da vacina e do combate ao desemprego. Está faltando isso na legenda da foto.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.