A implosão do PSL: o fracasso de Onyx em convencer o DEM

Quando Bolsonaro armou os ministérios, o único político com P maiúsculo era Onyx Lorenzoni, deputado federal há mais de vinte anos e escolhido para a Casa Civil. Em meio ao pouco tato político dos demais ministros, Onyx foi rapidamente avalizado pelos analistas como o mediador por excelência entre o Executivo e o Congresso. Ainda mais depois que liderou a ascensão de Davi Alcolumbre a presidência do Senado.

No entanto, quem conhecia o ex-deputado de perto, suspeitava que a sua truculência não combinava com o trabalho, não raro minucioso, de articulação política. Bastou a coisa começar para valer, e Onyx se revelou como alguém extremamente instável, tal como se espera de alguém que escreve os erros na própria pele para não esquecê-los. À medida que o governo batia cabeça e os deputados tomavam as rédeas do sistema, ficou cada vez mais claro que foi o sentimento anti-Renan Calheiros que elegeu Alcolumbre, e não a astúcia do chefe da Casa Civil.

A despeito do prestígio decrescente, Onyx não amargou o mesmo destino de outros próceres do governo desmoralizados pelo próprio presidente. Vale a pergunta, afinal, do que sustentava o ministro visto que, ao mesmo tempo, o governo sofria seguidas derrotas nas votações do Congresso.

Bolsonaro e Onyx ao lado dos líderes do DEM, Ronaldo Caiado (GO) e ACM Neto (BA).

Uma coisa, portanto, foi ficando clara: Onyx tinha uma outra função de articulação, a saber, estruturar a ligação entre o seu partido, o DEM, e o governo. Isso valeria para sustentar o governo nas atuais disputas legislativas, considerando que o DEM possui uma bancada relativamente grande (29 deputados). E também para vertebrar o presidente nas próximas eleições, já que o PSL não possui a mesma capilaridade municipal do DEM, o que era agravado pelas divergências internas que então corroíam o partido do presidente.

Para a tarefa de Onyx, o caminho parecia bem asfaltado: o DEM foi agraciado com três importantes ministérios — além da Casa Civil, os ministérios da Saúde e da Agricultura. Contudo, assim como não angariou o apoio do DEM no 2º turno das eleições, Onyx falhou novamente. Segundo informações do politólogo Marcos Nobre, o ministro pressionou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, durante a convenção do DEM, mas não obteve sucesso. O xeque-mate foi a recente aproximação entre DEM e PSDB, capitaneada pelos líderes Rodrigo Maia e Dória, o que bem insinua a dupla que formará a chapa em 2022.

Daí em diante, duas consequências:

1) Ao passo que Onyx falhou, as atribuições da Casa Civil foram esvaziadas e o ministro perdeu qualquer protagonismo. De modo mais exato: a análise jurídica das propostas legislativas foi para a Secretaria-Geral da Presidência (ministro Jorge Francisco); e as negociações com o Congresso para a alçada da Secretaria de Governo (ministro Luiz Eduardo Ramos). Na Casa Civil, sobrou apenas o Programa de Parceria de Investimento (PPI), sendo que quem realmente toca essa pauta é o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas.

2) Talvez alguém diga que o fim do vínculo entre DEM e PSL lembre o momento em que o PFL (antigo DEM) abandonou o governo Collor. Porém, ali também foi decisivo que o próprio partido do presidente, o PRN, tenha rachado e boa parte sequer apoiado o presidente durante o processo de impeachment.

Por isso, não surpreende que o movimento mais recente do PSL seja, justamente, apertar os cintos internamente. O presidente Bolsonaro já admitiu que abandonou a ideia, sugerida pelo filho Eduardo, de criar um novo partido. Logo em seguida, o presidente da sigla, Luciano Bivar, não apenas colocou em prática uma campanha nacional de filiação ao PSL, como começou o expurgo dos dissidentes. A começar por Alexandre Frota, o deputado paulista que já não tinha pudores em criticar o comportamento do presidente, o que atesta a deferência integral do partido a Bolsonaro.

Se o objetivo é mesmo sanar o partido, resta saber se farão o mesmo com o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, envolvido no caso dos laranjas? Mais do que isso, serão capazes de controlar os filhos do presidente, responsáveis, por exemplo, pela saída do importante Gustavo Bebianno?

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.