A invasão do Capitólio e o Brasil: aqui é quase quando

O americano Richard Morse, historiador especialista em América Latina, contestou as teorias hegemônicas sobre a colonização da América em seu famoso O Espelho de Próspero. Em lugar de tomar a colonização da América Latina como o oposto da próspera América do Norte, Morse aborda a experiência latino-americana sem julgá-la a experiência fracassada do Ocidente. Se as colônias de Portugal e Espanha não alcançaram a independência prematura como os Estados Unidos, é porque, na verdade, a colonização ibérica foi muito superior em termos de organização, método e planejamento. Azar o nosso.

Árvore de Sangue e Fogo que Consome Porcos (2013) de Thiago Martins de Melo.

Para medir a relação entre a tentativa de golpe trumpista na invasão do Capitólio e o mesmo perigo que corremos em 2022, talvez seja necessário fazer uma inversão semelhante. O fato de Trump fracassar não significa que Bolsonaro terá o mesmo destino porque, a despeito das aparências, o presidente brasileiro é mais apto para levar a cabo um golpe de Estado. Não se trata de tomar Bolsonaro como inteligente, tampouco como um imbecil, mas de tomá-lo como o que ele é: um político popular que nunca abandonou o tesão quase vintage pelos golpes de Estado com tanques na rua e, pior, nunca fez questão de esconder isso. Como lembrou Marcos Nobre: “Trump nunca participou, apoiou ou fez apologia a uma ditadura militar como a brasileira, o Bolsonaro fez. O Trump, comparado ao Bolsonaro, é um liberal.

Por mais que a invasão do Capitólio tenha alimentado uma narrativa triunfal para saída de Donald Trump após a derrota para Joe Biden, o ex-presidente só passou a jogar bomba no processo eleitoral quando a COVID despencou a sua popularidade. Bolsonaro, ao contrário, ataca as urnas eletrônicas desde antes de ser eleito. Em nome da coerência entre narrativa e prática, mais do que no caso de Trump, Bolsonaro estará disposto a forçar os limites da democracia em fidelidade ao seu projeto autoritário. Aqui é quase quando.

Rasga Mortalha (2019) de Thiago Martins de Melo.

Assim como ocorreu com a Suprema Corte americana, o nosso STF estará inflexível. O mesmo valendo para as autoridades eleitorais. Bem diferente, no entanto, das Forças Armadas. Lá, nada menos que dez ex-chefes do Pentágono alertaram para o risco autoritário prestes a tumultuar a transferência de poder em carta publicada no dia 3 de janeiro no Washington Post. Aqui, só para citar alguns exemplos, o tweet do general Villas Bôas na véspera do julgamento de Lula; o artigo Limites e Responsabilidades publicado pelo general Mourão no Estadão; e a ameaça do general Heleno contra a ordem do STF quanto à solicitação de apreensão do celular do presidente.

O alto generalato está funcionalmente atado ao bolsonarismo pelo postos de comando que ocupa, basta lembrar que há mais fardados no governo Bolsonaro do que em todos os governos da ditadura militar. Mesmo que haja uma ala moderada que não se confunde com o núcleo ideológico mais radicalizado, a exemplo do general Santos Cruz, a história está prestes a se repetir como tragédia. Tal como os moderados de 64 que defendiam a rápida devolução do poder aos civis, os moderados de hoje, se é que existem, serão tragados pela dinâmica hegemônica dos militares extremistas e, não menos importante, dos baixos oficiais e praças que estão vinculados ideologicamente a Bolsonaro.

Muito da descrença em qualquer habilidade de Bolsonaro, inclusive para levar o golpe a cabo, deve-se ao correto reconhecimento de que sua capacidade operacional, a nível ministerial e do aparelho de estado, é patética. Não é menos certo, no entanto, que tampouco interessa a Bolsonaro resolver os problemas cujas razões são econômicas, mas as consequências são culturais: racismo, homofobia, ressentimento e a completa ausência de solidariedade social. Se é certo que essas tendências fascistas renasceram da quebra de confiança no sistema econômico em lugar de resolvê-lo, Bolsonaro aproveita o ódio e a indiferença para a construção de identidades coletivas e a contínua identificação ideológica.

O resultado não é só que uma grande parcela da população vota contra seus interesses econômicos ao concentrar atenção em questões culturais e identitárias. Para além disso, zombam dos mortos e arriscam a própria vida pelo presidente, como fizeram durante a pandemia e certamente farão em caso de derrota de Bolsonaro em 2022. Que ninguém esqueça dos bolsonaristas carregando um caixão em deboche pelos mortos da COVID em plena avenida Paulista. Assim como dos manifestantes pró-democracia atacados com bombas de efeito moral na mesma avenida Paulista enquanto uma senhora, munida de um taco de beisebol com a inscrição “Rivotril”, era protegida pelos policiais. São duas faces da mesma moeda com que temos um encontro marcado — e não basta que sejamos apenas menos cruéis e desumanos que eles, será preciso demonstrar uma força, ainda maior, na direção contrária.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

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