A pandemia é o ensaio do colapso climático

É conhecido o verso de Fredric Jameson para quem “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. A pandemia, por sua vez, conferiu tamanho realismo para a imaginação do fim do mundo que induziu uma reflexão sobre a transformação do capitalismo, ao menos no que diz respeito ao clima. Nas palavras de Xi Jinping, “a Covid-19 nos lembra que devemos lançar uma revolução verde (…) não podemos mais ignorar os os alertas da natureza”, ressaltou o presidente chinês na última Assembléia Geral da ONU. Ao contrário da crise de 2008, momento em que apoio público às ações contra as mudanças climáticas esmoreceu, a pandemia despertou a consciência de que a mesma não representa mais que um ensaio do colapso vindouro.

Bento Rodrigues (2016) de Cristiano Mascaro.

Por isso, ao mesmo tempo que a pandemia afastou teorias conspiratórias e fantasias anticientíficas, a Amazônia foi tema do Fórum de Davos e da Assembleia Geral da ONU. As instituições financeiras e os grandes fundos de investimentos reforçaram o checklist de exigências ambientais, a exemplo da Bovespa que criou um novo índice sustentável em parceria com a S&P Dow Jones. O governo francês condicionou a ajuda a empresas como Renault e Air France a redução das emissões de carbono. O partido verde da Alemanha surpreendeu nas eleições municipais. Por fim, o democrata Joe Biden foi eleito com um programa de reconstrução sustentável da economia e bastou assumir a presidência que assegurou o retorno dos Estados Unidos ao Acordo de Paris.

Se é certo que a pandemia comoveu os atores políticos, não é menos certo que mal começamos a atender a urgência dos alertas. Mesmo antes do coronavírus, as máscaras já eram comuns na China por causa da poluição, assim como as populações dos países desenvolvidos já sofriam de problemas pulmonares pelo mesmo motivo. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, para cumprir a meta do Acordo de Paris e evitar o aumento da temperatura média da Terra em mais de 1,5° C, será preciso reduzir a emissões anuais de carbono em 45% até 2030, em relação aos níveis de 2010, e tornar-se neutros até 2050.

Bento Rodrigues (2016) de Cristiano Mascaro.

Desde o acordo finalizado em 2015,, a emissão de gases poluente cresceu ano após ano, com exceção de 2020 em que a paralisação das atividades surtiu a inédita queda das emissões. Mas uma queda, ainda assim, de apenas cerca de 5%, o que reforça o fato de que não basta viajar menos de carro ou de avião. Afinal, para além do automóvel que dirigimos, o alimento que comemos ou o estilo de vida que escolhemos, importa o sistema mais amplo de decisões e incentivos políticos com força de transformação do modo de produção predatório e voraz que, aos poucos, exaure as condições de existência. É disso que esquece Bill Gates quando propõe alternativas que devem ser levadas em conta — como reatores nucleares ou novas tecnologias que dissipam a quantidade de luz solar na atmosfera — muito embora as apresente dissociadas dos desafios políticos de implementá-las.

A boa notícia é que a União Europeia superou a saída do Reino Unido e concluiu o Green Deal em que estipulou a neutralidade do carbono até 2050. Já os Estados Unidos superou o trumpismo que convertia o discurso científico em discurso policial sobre a autoria do crime, pois assim o ex-presidente agia ao perseguir a China e dispersar o empenho na prevenção e redução dos danos. Desta vez, o retorno do país como um ator positivo na COP 26, marcada para novembro em Glasgow, deve firmar a aliança entre o Ocidente e as potências asiáticas — não em torno de uma nova agenda climática, mas da tradução dos acordos anteriores em medidas drásticas e efetivas.

Bento Rodrigues (2016) de Cristiano Mascaro.

Em entrevista recente a CNN americana, Lula retornou a mesma posição retrógrada em defesa da barragem de Belo Monte, o que ao menos esclarece o papel dos progressistas brasileiros daqui em diante: atualizar a agenda do ex-presidente em torno das questões do século XXI, dentre as quais o combate ao colapso climático, tal como fizeram a esquerda de Bernie Sanders e Elizabeth Warren em relação a Joe Biden. O desafio é construir um programa que não é definido pelo desenvolvimentismo, mas tampouco pelo abandono do desenvolvimento, e por isso leva à sério o que está acontecendo nos Estados Unidos. Ao contrário de Macron que aumentou os impostos sobre combustíveis e causou as revoltas dos gilets jaunes, o plano de Biden inclui a reconstrução sustentável da economia ao mesmo tempo que enfrenta os dilemas sociais, em especial o desemprego.

Em outras palavras, é questão de combater o aquecimento global e o desemprego por meio de investimentos públicos, além de parcerias público-privadas, em ações de reflorestamento, reciclagem e preservação de rios e oceanos; a renovação da infraestrutura existente, incluindo o transporte urbano; o incentivo à inovação tecnológica para aproveitar a demanda crescente por produtos clean-techs e energias renováveis. Diferente do desenvolvimentismo que julgava a proteção ao meio-ambiente como uma pedra no sapato da industrialização, a pressão internacional contra as queimadas na Amazônia tornou evidente que será preciso abraçar o novo paradigma global para manter o Brasil competitivo no comércio internacional.

Será preciso, portanto, vencer politicamente o negacionismo — seja de quem insiste que não corremos perigo, seja de quem afirma que já é tarde demais, duas condutas opostas mas que nutrem em comum a apatia política. Em lugar disso, nas palavras de Alyne Costa, “sem nutrir delírios de retornar a um passado ecologicamente estável ou de nos dirigir a um futuro enfim seguro, nossa motivação provém do reconhecimento da potência inventiva e da resiliência daqueles que optam por admitir o problema”. E ninguém mais inspirador do que a nova geração de jovens — representada por Greta Thunberg mas não apenas — que se valeram de insuspeita autoridade moral para tratar do tema cujos efeitos sofrerão literalmente na pele, e assim superaram a paralisa política e imaginativa dos atores políticos. No momento em que milhares de jovens trocaram as aulas de sexta-feira pelas esquinas e praças do mundo inteiro, eles obrigaram que olhássemos no espelho e, enfim, enxergássemos o paradoxo de uma sociedade que vive a procurar traços de vida em Marte, enquanto destrói os ecossistemas e vidas da Terra. A revolução começa aqui e agora.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.