6 meses completos e o Pix é uma unanimidade. Uma pesquisa da FGV revelou que a satisfação com o sistema atinge 98% dos usuários. Se 2018 foi o ano das maquininhas, 2019 das carteiras digitais e 2020 dos bancos digitais, 2021 é o ano do Pix, o sistema de transferência de valores instantâneos, 24 horas por dia, sete dias por semana e em todos os dias do ano.

A sua diferença em relação às inovações anteriores é o potencial disruptivo (e não só incremental) para transformar o nosso ambiente financeiro ainda marcado pela ineficiência, informalidade e improbidade, além do domínio concentrado em cinco bancos. A grande vantagem do Pix é interoperabilidade do seu sistema, pelo qual se conectam todos os tipos de contas, sejam contas correntes, contas poupança ou contas de pagamento (como o Picpay), e assim suplanta a limitação clássica de que os usuários precisariam abrir uma conta no mesmo banco ou app para realizar a transação. A partir do Pix, basta a chave ou o QR Code, ao contrário do emaranhado de informações do TED ou DOC (banco, agência, número da conta e CPF ou CNPJ), e a transação é realizada sem custos e instantaneamente.

Vão (2017) de João Paulo Racy.

A revolução, ainda assim, só está começando. Estamos vivendo a primeira fase em que o Pix se consolida como a forma mais usual de transferência de recursos. Segundo dados do Banco Central, ocorreram 478,6 milhões de operações no Pix em abril, enquanto os boletos atingiram apenas 336 milhões, os TEDs 111 milhões e os DOCs 8 milhões. Ao passo que as classes altas deixaram de pagar os valores abusivos do TED, as classes baixas não precisam mais apanhar transporte público e correr riscos desnecessários para ir até um banco só fazer uma transferência. O Pix, em outras palavras, radicaliza a eliminação de custos desnecessários, ao mesmo tempo que reforça a autonomia dos consumidores. E o principal: ao contrário de boa parte das inovações financeiras que primeiro beneficiam as classes ricas e somente tardiamente as demais, o Pix transbordou para todas as classes de uma vez só.

A segunda fase ocorrerá ao longo dos próximos meses: além da transferências, as pessoas vão realizar boa parte dos pagamentos através do Pix. Se as transferências foram auxiliadas pelo contexto de isolamento que nos acostumou com delivery de alimentação, compras online, telemedicina, e videoconferência, os pagamentos, por outro lado, foram prejudicados pela baixa circulação de clientes no varejo. Mas a tendência é que os consumidores cada vez mais passem a usar o Pix para as compras do dia a dia, os vendedores aceitem a modalidade em seus negócios e os bancos, fintechs e apps criam possibilidades e experiências de uso ao redor da transação. Dois dias atrás, por exemplo, foi a vez do Ifood começar a utilizar o serviço.

A Pix com QR Code vai substituir as compras em dinheiro ou cartão de débito, restando apenas o cartão de crédito que sobreviverá pela possibilidade de parcelar a compra e pagar em data futura. Uma vez que adotem o Pix, os varejistas tão logo se beneficiarão da liquidez (recebem o dinheiro na hora) e os custos reduzidos em relação ao cartão de débito, já que estarão menos sujeitos aos arranjos das bandeiras (Visa, Master) e das credenciadoras (Cielo, Stone). Outro dia recebi um botijão de água em casa, perguntei se aceitava cartão e o entregador rapidamente retrucou “faz um Pix”. Comecei a conversar e descobri que ele só aceitava dinheiro antes de saltar direto ao Pix, sem sequer ter passado pelo cartão, resultando numa súbita melhora da oferta aos clientes e aumento da sua produtividade (não precisa perder tempo para “trocar” o dinheiro, por exemplo).

Não é de hoje que revoluções nos instrumentos financeiros transformam as nossas vidas, cada qual facilitando o uso e empoderando os consumidores. Em âmbito global, as inovações envolveram o cartão de crédito (anos 50), o caixa eletrônico (60’), a tarja magnética (70’), o telephone banking (80’), o internet banking (90’), o cartão de crédito com chip (00’) e as carteiras virtuais (10’). O Brasil, por sua vez, destaca-se como país que praticamente inventou o pagamento parcelado que, a despeito dos problemas de transparência (juros embutido no preço “sem juros”), revelou-se um jeito barato de financiar o consumo e impulsionar o varejo. Outros marcos recentes da nossa indústria envolve a ascensão dos bancos digitais que incluíram uma fração da população que não tinha acesso aos bancos tradicionais (seja porque moravam em cidade sem agência física, seja porque tinham nome com cadastro negativo), bem como a disseminação das corretoras que permitiram o acesso de investidores de menor renda a produtos financeiros sofisticados.

Com o Pix, e diante de tamanha interconectividade, quem permanecer fechado será excluído — seja pela concorrência, seja pelo consumidor cada vez mais exigente. Com exceção da vacina, o Pix é a invenção recente que mais revolucionou as nossas vidas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.