A rua é a arquibancada de onde se vê o futuro

Nenhum presidente melhor que Bolsonaro entendeu o futebol como fenômeno de massa. Basta lembrar a quantidade de estádios que visitou nos últimos meses. Ou as camisas de clubes que usa frequentemente. Ele só não esperava que as torcidas organizadas tomassem o lugar dos partidos de esquerda e desencadeassem as manifestações contra o governo.

São torcidas que não raro tem sido barradas na porta dos estádios pelo preço dos ingressos e a extinção das gerais. Nem por isso deixaram de fazer a festa mesmo que na rua, o que também inclui se defender e correr da truculência policial, como vimos na passeata do Flamengo após o título da Libertadores. A rua se tornou a continuação da arquibancada por outros meios e o último domingo implicou uma inflexão sem volta na sensibilidade coletiva: ao mesmo tempo que a luta antirracista estremecia os Estados Unidos, as torcidas anunciaram que o tempo de Jair Bolsonaro acabou.

Se Collor enfrentou os caras pintadas e Dilma os verde e amarelos, contra Bolsonaro, ao menos quem está dando os primeiros passos, são as torcidas organizadas — em especial a Gaviões da Fiel, criada em 1969 em resposta a associação entre dirigentes do Corinthians e a ditadura militar.

Antes daqui, cruzamos imensos dias prostrados diante das janelas do computador em que as curvas do vírus, as promoções dos apps e as carreatas contra o isolamento social se alternavam sem parar. Eram como um gif, um loop sem fim, uma compulsão à repetição própria ao trauma, até que passamos às janelas dos apartamentos onde batemos panelas e descobrimos uma quantidade surpreendente de vizinhos não-fascistas. Daí se abriram janelas no próprio real por onde enxergamos horizontes até então imprevistos.

Foi a carta de despedida de Flávio Migliaccio que nos atravessou como a melhor expressão da realidade brasileira no limiar tortuoso das suas contradições. O entusiasmo pelos heróis anônimos que decidiram, antes de todos, tomarem o presente pelas mãos ao desafiar a barbárie, como a ciclista Sabrina Nery que partiu para cima de bolsonaristas após sofrer assédio. O furor das redes mútuas que surgiram nas favelas para suprir a indiferença estatal quanto ao avanço da COVID. Em todos os casos, decerto, o combate ao vírus paulatinamente se tornou a invenção de outro porvir à medida que perdíamos o ceticismo e o medo — ambos afetos que sustentavam a apatia — para retraduzir o desconforto em hipóteses inéditas quanto ao futuro.

De agora em diante, os corpos se unirão novamente no asfalto, desta vez com novas feições: as máscaras, o álcool em gel e a distância entre os corpos numa coreografia imune ao vírus. Sem abrir mão das estratégias black blocks de proteção aos manifestantes, será preciso, mais do que nunca, driblar a lógica da violência policial, resistir às provocações de quem costuma bater primeiro. Desafiá-los no mesmo tom induz a legitimação da lei do mais forte, do mais armado, do mais interessado no mínimo motivo para engendrar uma apropriação autoritária das manifestações.

Por outro lado, nem tudo é novidade e as semelhanças com o maior protesto de massa da história do país — as Jornadas de Junho de 2013 — vão além da coincidência temporal.

Em primeiro lugar, assim como eram os 20 centavos, temos um alvo tangível, preciso, prático, e imediato: defender a democracia através do impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Em segundo lugar, parecido ao MPL, um dos fundadores da Gaviões da Fiel, o sociológo Chico Malfitan, já deu o papo: “nossa ideia é ser um gatilho de pólvora, é riscar o primeiro fósforo”, sinalizando a consciência de que as torcidas perderão o controle das manifestações ao passo que as massas desçam às ruas e reverberem pautas difusas e menos orientadas a resultados específicos.

Para a frente a favor do impeachment, a “identidade de esquerda” não precisa ser uma condição preponderante. A defesa do impeachment, é bom que se diga, não implica uma conversão ao programa de esquerda. Estaremos numa “frente confusa e policêntrica como costumam ser as frentes amplas típicas de um impeachment em defesa da democracia”, como definiu Marcos Nobre, o que não é o mesmo da defesa nostálgica do pacto lulista, e sim uma coalizão tática, sem a qual o impeachment é quase impossível.

Sabemos que vários dos que cerrarão fileiras conosco defendem o mesmo programa econômico de Paulo Guedes, mas o caldo do movimento pelo impeachment será uma energia social que sobreviverá ao final das manifestações — e o que faremos dela é que decidirá o resultado do processo.

Caberá à esquerda dar forma política às inúmeras intuições e reivindicações que nascerão ao longo das revoltas — assim como fizeram os grupos de direita (MBL e Vem Para Rua) após Junho de 2013, mas também os coletivos feministas que projetaram lideranças como Marielle Franco, Áurea Carolina e Talíria Petrone.

Diante do colapso das alternativas institucionais por obra de Jair Bolsonaro, não há outra coisa senão fazê-lo vir abaixo: não apenas pelo presidente que cai, mas pela via que passará através dele.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.