Analogia do dissimilar: a extrema-direita face a COVID

A derrota de Donald Trump na eleição norte-americana, associada ao fracasso do bolsonarismo nas disputas municipais, acenderam as luzes sobre o futuro da extrema-direita a nível global. Mais do que uma mera luz no fim do túnel, é provável que estejamos diante de uma clareira… resta que não deixemos nos cegar.

Cosmogonia Superdivina (2018) de Guerreiro do Divino Amor.

Tanto no caso de Trump quanto de Jair Bolsonaro, o eleitor puniu o escárnio à vida que ambos protagonizaram no combate negligente a COVID. Em lugar de fornecerem respostas estruturais ao avanço da pandemia, os dois presidentes recrudesceram o histrionismo discursivo ao mesmo tempo que seus países se tornavam exemplos do que não fazer perante o vírus. A mesma linguagem agressiva e polarizadora que anos atrás galvanizou o apoio do eleitorado, desta vez, tornaria-se o principal ônus eleitoral contra Trump e Bolsonaro.

Por outro lado, não é verdade que os demais líderes da alt-right mundial agiram parecido. Um levantamento do Intitute for Global Change, organização chefiada pelo ex-premiê inglês Tony Blair que monitora governos populistas, verificou que os únicos líderes de extrema-direita que negligenciaram a pandemia, além de Trump e Bolsonaro foram Daniel Ortega da Nicarágua e o primeiro-ministro da Bielorrússia. Ao contrário disso, por exemplo, a seriedade de Recep Tayyip Erdoğan diante da crise reconstruiu a credibilidade que então vacilava pela estagnação econômica da Turquia após uma década de crescimento acelerado.

Na Hungria, a dureza de Viktor Órban no combate a Covid garantiu a retomada da popularidade do primeiro-ministro após a derrota do seu partido, o ultradireitista Fidesz, nas eleições municipais de Budapeste em dezembro. Junto às medidas sanitárias, Órban aprovou um estado de emergência que conferiu superpoderes ao Executivo, em detrimento dos outros poderes, com duração ilimitada. Muito embora o próprio Órban já o tenha revogado, a experiência serviu para normalizar a excrescência autoritária que poderá ser usada com mais facilidade no futuro — seja por causa da pandemia ou não.

Infrario (2017) de Guerreiro do Divino Amor.

Já na Polônia, a outra pária autoritária que integra a União Europeia ao lado da Hungria, deu-se algo parecido: o premiê Mateusz Morawiecki fechou o país com celeridade, estabeleceu protocolos e salvou vidas. A grave questão, embora não surpreendente, é que o fortalecimento do Executivo se tornou veículo para avançar um conjunto de leis específicas contra o aborto e a educação sexual. Agora, no momento em que o vírus volta a assombrar o país, o sociólogo polonês Rafał Pankowski conta que “muitos não entendem por que o governo gastou tanta energia contra os gays em vez de preparar o sistema de saúde para a segunda onda”. Foi por isso que as jovens agitaram protestos contra a guinada homofóbica do governo que resultaram numa série de contra-ataques de extremistas e milicianos da extrema-direita polonesas contra as feministas.

Curiosamente, neste exato momento, as polonesas contam com uma outra mulher ao seu lado: a alemã Angela Merkel. Além de liderar a elaboração do plano de retomada econômica pós-COVID, Merkel está vinculando a liberação de recursos ao respeito dos princípios e valores democráticos defendidos pelo bloco, numa clara reação aos avanços autoritários da Polônia e Hungria. Não por outra razão, os líderes polonês e húngaro estão bloqueando a aprovação do fundo e uma videoconferência entre os membros do bloco europeu está agendada para quinta-feira (19).

A tarefa de Merkel não é fácil, afinal, a aprovação de orçamentos e fundos de recuperação dependem de unanimidade entre os 27 países. De todo modo, a liderança de Merkel sobre a União Europeia nos últimos meses — é bom lembrar que ela foi a grande protagonista do acordo histórico de endividamento coletivo que financiou os países do bloco no estopim da pandemia — disparou a aprovação do seu governo entre os alemães, para o que também contou o exemplar combate a pandemia na Alemanha. O inverso ocorreu ao partido da extrema-direita do país, o AfD (Alternativa Para a Alemanha), que mobilizou protestos contra as medidas de Merkel e não tardou para que diminuíssem as intenções de voto no partido segundo as pesquisas sobre a eleição de 2021. Além do Afd, outros partidos de extrema-direita europeia que perderam popularidade pela postura negacionista foram a Liga Norte (Itália) e o Vox (Espanha).

Supermídias (2017) de Guerreiro do Divino Amor.

Na França, da qual Macron foi o outro grande responsável pelo acordo europeu, a popularidade do presidente cresceu depois de meses de queda em meio as manifestações dos gilets jaunes. No atual momento, no entanto, o país de Macron está enfrentando uma segunda onda do vírus e a estratégia da direitista Marine Le Pen é oposta a da ultradireita alemã: a líder da Frente Nacional critica Macron por supostamente não tomar as medidas necessárias a cuidar da população. As pesquisas mais recentes do Instituto Francês de Opinião Pública (IFOP) indicam que ela e Macron disputarão outra vez o segundo turno nas eleições presidenciais de 2022.

À vista disso tudo, se 2020 entrará para a história como o ponto de virada na guinada da extrema-direita mundial, isso se deve mais a queda de Trump — uma referência para a alt-right global — do que a pandemia em si. É certo que a negligência de Trump lhe custou a presidência, assim como poderá custar a Bolsonaro, mas outros líderes adotaram posturas diferentes e não à toa que ganharam apoio ao longo da crise sanitária (Órban, Erdogan, Le Pen).

Para além da pandemia como uma espécie de bala de prata, o verdadeiro antídoto contra a extrema-direita são de outras três espécies: 1) as mobilizações populares que coíbem a normalização de medidas autoritárias, como estão agindo as jovens polonesas; 2) as alianças internacionais que visem à garantia dos direitos humanos, vide a recente movimentação na União Europeia liderada por Angela Merkel; 3) a construção de uma plataforma progressista capaz de reverter os efeitos do neoliberalismo que alimentaram os sentimentos regressivos, a exemplo de Joe Biden que incorporou uma série de propostas progressistas ao seu projeto político para derrotar Trump.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.