Antes de Lula, o maior problema de Bolsonaro é a inflação

O nome de Lula desponta no horizonte de 2022 mas, ao menos por ora, o maior problema de Bolsonaro é a inflação. Já em janeiro, o Datafolha mostrou que 96% dos brasileiros notavam o aumento de preços da comida. Ao contrário do preço do combustível, o presidente não tem como intervir no preço do arroz, do feijão, da alcatra ou do óleo de soja, itens que compõem a cesta básica dos mais pobres

Se chamá-lo de genocida ou fascista não surtia estrago suficiente na popularidade do presidente, a oposição descobriu o potencial comunicativo dos memes contra o aumento dos preços. Cartazes foram colados em avenidas importantes. O vídeo do Bolsocaro foi compartilhado por gente que vai de Anitta e Fábio Porchat até Ciro Gomes e Guilherme Boulos. As buscas no google pela comparação entre os preços na era Lula e agora dispararam e um levantamento do Ipec revelou que Lula já supera Bolsonaro em potencial de voto para 2022.

A inflação faz tanto barulho porque a subida dos preços diminui o poder de compra da população no mesmo momento em que o desemprego e o fim do auxílio emergencial fazem parecido. Mas por que a inflação está tão acirrada? Por um lado, muitas empresas operaram ao longo da pandemia com estoques baixos e dificuldade para obter peças e insumos, o que impactou os preços de materiais de construção, por exemplo. Por outro lado, a grande razão está mesmo no aumento dos preço dos alimentos. Para se ter uma ideia, a inflação geral em 2020 foi de 4,52%, considerada elevada para um ano em que o PIB caiu mais de 4%, enquanto a inflação só dos alimentos atingiu 14,09%.

Reformulando a pergunta: por que a inflação de alimentos está de tal maneira? Pelo menos duas razões: o aumento da demanda internacional na esteira da pandemia que gerou um mini-boom das commodities (soja, milho, arroz, carne bovina, etc) e a desvalorização do real que elevou os preços no mercado doméstico. O paradoxal é que nas últimas décadas, ao contrário, quando as commodities ficavam mais caras no mercado internacional, o real se valorizava (pelo aumento das exportações em real) e assim compensava a elevação dos preços dos alimentos nos super-mercados (ver gráfico abaixo). Sem esse mecanismo de compensação chamado “repasse cambial”, a pressão inflacionária está se dando pelas duas vias: não só o arroz e o tomate ficam mais caros no mercado de commodities, mas o real se desvaloriza e o arroz e o tomate ficam duplamente mais caros para os consumidores nacionais.

Isso ocorreu porque o câmbio, mesmo com os ganhos nos termos de troca gerados pelo mini-boom das commodities, ainda assim despencou. À vista da experiência dos demais países emergentes, se é certo que as moedas desses em geral se desvalorizaram, a moeda brasileira, por sua vez, teve o pior desempenho a despeito da nossa grande quantidade de reservas internacionais (ver o gráfico abaixo). Em estudo publicado no IBRE-FGV, o economista Lívio Ribeiro analisou as contribuições para o comportamento das moedas e identificou que a maior parte da desvalorização do câmbio foi motivada por fatores globais (como o desempenho do dólar em tempos de crises e a aversão ao risco no mercado internacional), o que explica a tendência convergente no câmbio dos países emergentes — todos marcados pela presença de investidores estrangeiros nos mercados de capitais locais que aceleram a transmissão de choques financeiros internacionais para tais mercados. Para entender porque o real se desvalorizou ainda mais que as outras moedas, uma primeira explicação é fornecida por Pedro Rossi, em seu livro Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil, onde o economista demonstra que o mercado de derivativos e de câmbio futuro é mais desenvolvido no Brasil que nos demais emergentes, razão pela qual há um elevado número de negociações de contratos futuros de dólar que geram uma volatilidade maior nos fluxos especulativos de capital do mercado brasileiro.

O estudo de Lívio Ribeiro também destaca que motivações domésticas, além dos fatores externos, também resultaram, embora em menor medida, na desvalorização do real. O economista reforça que “os fatores de incerteza estão relacionados ao futuro da política fiscal a das contas públicas”, sugerindo que o aumento das despesas com o combate da pandemia interferiu na percepção de risco do país e gerou uma retração dos fluxos de capitas que assim desvalorizou a moeda. De fato, a condução errática da política econômica pelo presidente Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes engendrou uma situação em que o governo não abandonou o compromisso demagógico com o Teto de Gastos, mas tampouco forneceu um horizonte de longo prazo para as contas públicas que induzisse a ancoragem das expectativas, seja via uma política mais ampla de ajuste estrutural das contas públicas, seja via uma melhora da arrecadação pela taxação dos mais ricos ou crescimento econômico.

Um estudo de Rodrigo Torneto, com efeito, investigou as causas da desvalorização do câmbio e propôs uma narrativa que vai além da preponderância fiscal na determinação do câmbio. Olhando os dados cambiais de janeiro a dezembro de 2020, em comparação aos demais países emergentes, Torneto destacou que a “a desvalorização da moeda brasileira do início do ano até fim de maio foi de 34% frente a 11% do conjunto de referência”, ao passo que “no período do início de junho até fim de setembro, o Real acumulou uma desvalorização de 5,8% enquanto a média das moedas emergentes ficou em 2,4%.” Se é assim, a desvalorização e a disparidade do real em relação ao resto dos países emergentes ocorreu justamente nos meses em que vivemos o ápice da crise política com a demissão de dois ministros da saúde, ameaças de golpe militar e as queimadas na Amazônica, razões mais do que suficientes para afugentar o investidor de longo prazo cuja confiança depende de instituições, regras claras e comportamentos previsíveis. Mais recentemente, são as alegações de que Joe Biden teria vencido as eleições de maneira fraudulenta, a pandemia descontrolada e a intervenção na Petrobrás que explicam muito do Real ter se tornado a moeda que mais se desvalorizou nos dois primeiros meses de 2021 (com exceção de Sudão, Líbia e Venezuela).

Em 2020, mesmo com o mini-boom das commodities, as incertezas políticas afastaram do Brasil boa parte dos estímulos monetários implementados pelos Bancos Centrais desde o estopim da pandemia. Agora, por mais que as commodities permaneçam aquecidas, os capitais gerados pelo otimismo internacional com a vacinação estão indo para os países com plano de imunização avançado e que já preparam os programas econômicos do pós-pandemia, enquanto o Brasil perde lugar na retomada sincronizada da economia mundial. O maior inimigo do Brasil, hoje, é o próprio governo, e não o cenário externo.

Essa sorte mal aproveitada, no entanto, não dura uma vida inteira. Em 2009, logo após a crise mundial do ano anterior, vivemos um período parecido de boom das commodities e maciço fluxo de capitais para as economias emergentes que impulsionou o crescimento do Brasil, momento em que Lula saiu do governo com quase 90% de aprovação. A reversão do ciclo se deu a partir de 2011, quando os preços das commodities recuaram e menos dinheiro escorreu para os emergentes, não à toa a mesma hora em que iniciou a derrocada do governo Dilma. O Brasil está novamente à beira de um colapso. Ainda bem que 2022 já não está tão longe.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.