As entranhas do bolsonarismo segundo o Datafolha

A pesquisa do Datafolha, divulgada no último domingo (13), frustrou quem torcia ou imaginava uma piora na avaliação de Jair Bolsonaro. O presidente manteve a aprovação de 37% entre os brasileiros que consideram seu governo ótimo ou bom, e ainda gozou de uma des-piora na desaprovação que caiu de 34% para 32%.

A flexibilização do isolamento reanimou muita gente que voltou às ruas, a poupança acumulada desaguou e o comércio de varejo bombou. O valor do auxílio emergencial caiu pela metade mas ainda é maior que o do Bolsa Família e inclui muito mais beneficiários. Se a aprovação não chegou a subir, é porque outros fatores empataram o jogo como a inflação de alimentos e o mercado de trabalho que não pegou o tranco.

Sem título (1964) de Mira Schendel.

Olhando mais de perto, os resultados são semelhantes à pesquisa Datafolha de agosto, momento em que notou-se uma reconfiguração no quadro de apoiadores do presidente. Ao mesmo tempo que perdeu o apoio da fração mais rica (44% em dez/2019 → 39% agora) e escolarizada (35% → 33%), decepcionadas pelo negacionismo e as demissões de ministros badalados, os últimos meses garantiram-lhe uma aprovação inédita junto a parcela mais pobre (31% → 37%) e residente em cidades do interior (34% → 41%). O auxílio emergencial, com efeito, tanto aumentou consideravelmente o poder de compra dos cidadãos do interior, onde o custo de vida é reduzido, quanto elevou sobremaneira a renda das famílias que recebem menos de 2 salários mínimos de todo o país. Atualmente, segundo os cálculos de Vinícius Torres Freire, metade dos apoiadores de Bolsonaro tem renda familiar de até dois salários mínimos, enquanto esses mesmos representavam apenas um terço dos “bolsonaristas” até o final do ano passado.

Bolsonaro permanece mais forte nas regiões Centro-Oeste e Sul, ainda mais agora com o boom no preço das commodities que ambas regiões exportam. Chama atenção, no entanto, a cristalização da sua penetração no Nordeste. Na pesquisa anterior, a rejeição na região tinha caído de 52% para 35%. Desta vez, permaneceu estável em 34%, o que ainda a mantém como a região mais arisca a Bolsonaro, embora em níveis menos piores que outrora. Nos últimos meses, Bolsonaro seguiu participando de viagens e inaugurações no Nordeste, além de ter consolidado os vínculos com os partidos fortes na região (PP, PSD e MDB).

Há ainda muitas incertezas a respeito da manutenção desse apoio (pobre, interiorano e nordestino), em especial pelo fim do auxílio emergencial a partir de janeiro. Ainda não sabemos quantos desses novos apoiadores estão atraídos por outros fatores para além do auxílio — como a defesa da pauta religiosa e de costumes (incluindo o fenômeno da interiorização das igrejas neopentecostais); o discurso do presidente pela reabertura forçada da economia (que tivera apelo especialmente em cidades pequenas com poucos casos); ou, simplesmente, a identificação pessoal com o carisma e modos desajeitados do presidente.

É impossível dizer o que acontecerá… contudo, caso se confirme a tendência — isto é, que Bolsonaro consolide essa base social reconfigurada — a esquerda estará diante de um enorme desafio, tal como vimos nas eleições municipais. Muito embora Bolsonaro não seja propriamente um presidente popular (sua avaliação só é melhor que a de Collor dentre os presidentes em primeiro mandato), a reconfiguração da base bolsonarista é ruim para a esquerda por dois motivos:

a) Foi entre os mais pobres, assim como nos municípios do interior do Nordeste, onde Fernando Haddad (PT) tivera o melhor desempenho na última eleição.

b) Ainda que os estratos superiores estejam abandonando o bolsonarismo, a maior parte desses não se juntará a esquerda, basta observar o elevadíssimo antipetismo entre os mais escolarizados.

Sem título (1964) de Mira Schendel.

O que vemos agora é uma esquerda sem capacidade de ação, pois atordoada com o fato de a direita brasileira ter, enfim, produzido a sua figura com capacidade de incorporação do povo”, escreveu Vladimir Safatle meses atrás. Por essa ótica, a pesquisa do Datafolha reforçaria essa melancolia que desarticula nossa capacidade de ação na esteira da internalização do luto — contínuo e infinito — das nossas próprias forças. “É melhor jair se acostumando”, diriam os bolsonaristas.

Tomando outra via, o espanto com a pesquisa impele que paremos de esperar uma bala de prata que substitua nosso trabalho de ação e organização política — se é verdade que a popularidade de Bolsonaro pode cair com o fim definitivo do auxílio, não devemos contar com isso, tal como fizemos no caso Queiroz e na queda de Sérgio Moro.

A própria pesquisa, afinal, fornece alguns caminhos valiosos e camuflados entre os números. Ao mesmo tempo que os mais pobres são quem menos desaprovam o presidente (apenas 27%), também são quem mais acreditam que Bolsonaro fez menos do que deveria contra a pandemia (58%) — entre os desempregados, esse percentual chega a impressionantes 70%. Um movimento de revolta contra o governo pode politizar a percepção desse grupo cujas três principais preocupações, de acordo com a pesquisa, são saúde, desemprego e crise econômica — razão pela qual a esquerda deve construir uma narrativa política em defesa do auxílio emergencial, do plano nacional de vacinação e de um programa contra o desemprego (baseado na flexibilização do Teto de Gastos e na tributação das rendas elevadas).

Além disso, entre os entrevistados pelo Datafolha, o grupo que mais reprova o governo são os estudantes (49%). Foram também eles que protagonizaram as maiores manifestações contra o presidente em 2019, episódio em que obrigou o governo a recuar dos cortes na Educação. Estarão prontos a ocuparem as ruas novamente — assim que a pandemia retroceder — até o ponto de arrastarem as demais categorias? A popularidade do presidente depende não só do próprio desempenho, mas das alternativas que despontam no horizonte.

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