Bitcoin, Blockchain e o retorno da aura na Arte

Tenho trabalhado em um novo sistema de pagamento eletrônico que é totalmente peer-to-peer, sem terceiros confiáveis.” Foi assim que Satoshi Nakamoto iniciou o email em que apresentava a sua mais nova invenção: o Bitcoin.

Beeple (2021)

Quando se referiu ao sistema peer-to-peer (pessoa-para-pessoa), Nakamoto sinalizava que o registro das transações em bitcoin não estaria centralizado em nenhuma autoridade monetária, e sim na tecnologia blockchain. Para entendê-la, deve-se imaginar um sistema descentralizado em que cada computador ou “nó de rede” conectado mantém uma cópia do sistema inteiro, que é validado e replicado cada vez que uma Bitcoint é transacionada no sistema. Como todas operações são publicizadas e registradas na íntegra, a interação entre os negociantes é confiável mesmo sem a presença de um intermediador financeiro (como um banco).

Outras criptomoedas foram criadas ao longo dos anos noventa… mas a coisa não pegou. Desta vez,, a Bitcoin de Nakamoto, embora surgida em 2008, ganharia vulto cerca de dez anos depois e avizinha as chamadas moedas fiduciárias (dólar, euro, real, etc).

Não sabemos se a Bitcoin, o Ether ou as demais criptomoedas vão mesmo desbancar as moedas tradicionais e os intermediários financeiros, mas a sua tecnologia, o blockchain, já se espalhou. O motivo principal é justamente a sua segurança: se o objetivo inicial era gravar as transações em Bitcoins, o sistema Blockchain permite o registro de qualquer tipo de informação, ordenando-as cronologicamente e em forma de blocos em cadeia (“blockchain” ou “cadeia de blocos”). O resultado é uma database em que tudo pode ser auditado e verificado.

As possibilidades de uso são variadas: transações financeiras, gerenciamento de cadeia de suprimento, registrar ativos e propriedades, etc. Uma vez que diminui os intermediários e os riscos, a blockchain reduz os custos e aumenta a eficiência do sistema como um todo. Basta pensar um blockchain que guarde escrituras de compra e venda de imóveis, reduzindo a necessidade de cartórios e os custos envolvidos.

“Everydays: The First 5000 Days” de Beeple (2021).

Para além das criptomoedas, outra coisa envolvendo a tecnologia blockchain chamou atenção recentemente: a venda do NFTO (non fungible token) do mosaico com 5 mil imagens do artista americano Beeple por R$ 387 milhões. A obra, por sua vez, é totalmente digital e disponibilizada na internet. Ou seja, os R$ 387 milhões não correspondem a compra da obra em si (essa nós podemos vê-la a qualquer hora), mas do NFTO, um certificado no blockchain que garante a “autenticidade” da obra.

A diferença do NFTO (em portugues: token não fungível) em relação a criptomoeda é a sua “fungibilidade”. Enquanto uma Bitcoin é igual a qualquer outra Bitcoin, cada NFTO é único e irrepetível, e por isso serve de selo de autenticidade. Muito embora as imagens de Beeple sejam infinitamente reprodutíveis, o mesmo só pode ter um token que o identifique, o que o torna não só autêntico, mas comerciável com a devida transferência de “propriedade”.

Para entender o valor exorbitante pago pelo “mero” NFTO, o crítico de arte Gerard Genette admitia que “num ready-made, a obra não é o objeto exposto, mas o fato de se expor”. Já no caso do NFTO, pode-se dizer que o apelo da obra não é a imagem, mas a sua conversão em bem infungível. Em outras palavras: o NFTO agrega valor estético através da combinação entre uma imagem reproduzível ao infinito e um NFTO irrepetível. A graça está nesse curto-circuito.

Ao contrário dos demais usos do blockchain, o NFTO não reduziu os custos, mas forneceu algo misterioso às imagens de Beeple a ponto de torná-las a obra de arte digital mais cara da história. Esse “algo misterioso” é justamente a opacidade das novas tecnologias (diferente da auto-evidência dos objetos mecânicos). Tudo se passa como se as imagens velassem ou escondessem algo, reservando-se assim uma aura. Se você ainda não entendeu direito o que é blockchain, essa incompreensão faz parte do encanto pelos NFTO. “Se estiver tudo exposto, é só um pênis”, escreveu Lacan.

Ao passo que nas trocas comerciais o blockchain substituiu os riscos, na arte devolveu a autenticidade e a aura ao objeto, atributos fundamentais ao colecionismo. Assim como Magritte desenhou um cachimbo e enfatizou que “isto não é um cachimbo”, a obra de Beeple não é a imagem, mas a superfície que oculta, atrás de sí, a imaterialidade abstrata do novo mundo de possibilidades tecnológicas que então se abre. Quem vai ao Guggenheim de Bilbao ou ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói, por exemplo, presta mais atenção na paisagem ao redor do que nas obras expostas, e aqui acontece o mesmo com a NFTO em relação ao conteúdo das imagens. A produção de glamour depende da nebulosidade tecnológica.

Beeple (2021)

Paradoxalmente, o NFTO fecha o arco da história da arte iniciado pela reprodutibilidade técnica, interpretada por Walter Benjamin como “a contrapartida estética dos movimentos de massa” (como escreveu o filósofo Rodrigo Naves) e cujo último ato fora as imagens virtuais, agora apropriadas pelo NFTO. Esse, afinal, serve como compensação às elites pelo pleno acesso das classes subalternas às formas artísticas e o desgaste da distinção entre cultura erudita e cultura popular (basta pensar na gente acotovelando em qualquer exposição de Masp). O efeito de reencantamento, por sua vez, é fadado a durar pouco. A multiplicação das NFTOs tão logo reduzirá o estranhamento até que a recaída no gosto minimize o seu efeito originário.

O “mistério” do blockchain vai acabar, mas os seus efeitos econômicos de redução dos custos e inclusão financeira estão apenas começando.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store