Bolívia e Chile: lições políticas que vêm dos Andes

O Brasil não é uma ilha apartada do continente. Nossa formação — histórica e linguística — é singular, mas não isolada. Os eventos políticos de nossos vizinhos tanto engendram quanto desdobram os nossos, como uma caixa de ressonâncias onde talvez residam, desde já, índices misteriosos quanto ao nosso futuro político.

Arce comemora a vitória, ao lado do vice Choquehuanc, após a divulgação dos primeiros resultados (18/10).

A começar pela Bolívia, onde o MAS (Movimento ao Socialismo) retornou a presidência através da eleição de Luis Arce no domingo passado (18). Após o golpe de Estado sofrido por Evo, acusado injustamente de fraudar o processo eleitoral anterior, o partido decidiu não esticar corda. Em lugar da guerra civil contra os golpistas, defenderam uma saída democrática via novas eleições. Se tivessem partido para a porrada, é provável que não voltassem tão cedo. O fracasso eleitoral do oponente Carlos Mesa, o qual se imaginava o natural herdeiro do golpismo militar que expurgou Evo do poder, provou que os bolivianos não abre mão de soluções democráticas, para as quais o MAS se provou à altura.

Quanto a escolha do seu candidato, o partido hesitou entre o vitorioso Luis Arce e David Choquehuanca, esse último alguém próximo politicamente de Evo Morales. A decisão favorável a Arce se baseou num cálculo pragmático que nem sempre é priorizado no interior dos partidos: o preferido de Evo, Choquehuanca, sofreria uma rejeição muito maior pela sua proximidade ao ex-presidente, que estava desgastado com parte da população desde que desacatou o plebiscito de 2016 para tentar a reeleição. Já a favor de Arce, pesou o fato da sua imagem de político moderado e atraente ao “eleitor médio”, além do seu trabalho como ministro da Economia (2006–2019), responsável pela nacionalização da exploração do petróleo e do gás natural, onde dera provas de que sabe resolver problemas, uma qualidade que se tornou sobrevalorizada ao longo da pandemia.

A solução eleitoral do MAS (Arce como presidente e Choquehuanca vice) se assemelha aos peronistas que trocaram Kirchner por Fernández para vencer a eleição na Argentina. Talvez seja o que tenha faltado a esquerda brasileira em 2016 — como afirmou o marqueteiro João Santana no Roda-Viva da última segunda (26) — e, se for o caso, que não falte novamente em 2022.

Chilenos comemoram na Plaza Italia em Santiago após o resultado vitorioso do plebiscito (25/10).

Já no Chile, os chilenos aprovaram a criação da nova Constituição para substituir a carta herdada pela ditadura e ainda em vigor. O plebiscito foi consequência direta das manifestações populares que sacudiram o país há um ano, onde os jovens e os movimentos anti-sistêmicos, além dos partidos de esquerda, protagonizaram um levante muito parecido o nosso Junho de 2013. A diferença é que os chilenos superaram o descompasso entre a potência das mobilizações e a ambiguidade dos resultados concretos ao institucionalizarem os esforços na nova Constituição, através da qual será possível transformar o limite do possível.

Aqui no Brasil, uma ideia tosca de ‘nova Constituição’ surgiu durante a campanha a presidência de Fernando Haddad em 2016. Mas, ao contrário dos chilenos, nós já conquistamos uma Constituição progressista após o fim da ditadura militar, ao contrário da carta chilena que consumou a transição à democracia só com emendas pontuais. Nosso desafio assim se afigura oposto ao chileno no seu sentido — proteger, e não trocar, a atual Constituição — mas semelhante quanto ao método necessário. Tanto aqui como lá, será preciso consolidar os vínculos políticos entre a esquerda partidária e os novos movimentos sociais (autonomistas, feministas, ambientalistas, antifascistas etc) para levantar voos maiores.

O próximo desafio da esquerda chilena envolve a eleição da maioria 2/3 da Assembléia Constituinte, quórum necessário para a aprovação de cada um dos dispositivos, em especial quanto ao modelo de bem estar social que a atual carta limita. Dito de outro modo: para que o Chile enfim tenha SUS, CLT, INSS e universidades públicas, a esquerda terá que arrancar uma vitória ainda mais difícil. Sobretudo porque os partidos de centro-direita que votaram pelo fim da constituição de Pinochet estarão, de agora em diante, do lado contrário, já que são adversários históricos da expansão social do Estado chileno.

A esquerda tradicional terá que sair de si para acomodar os manifestantes autônomos que, ao menos em princípio, são reticentes a centralização partidária, assim como esses revolucionários precisarão ceder alguns pontos para se adequar às formalidades da política institucional. Disso dependem, afinal, a interrupção das manifestações violentas (como o recente incêndio numa igreja de Santiago) que perigam empurrar os eleitores centristas para a direita, além da emergência de lideranças públicas de esquerda que até agora não está claro quem serão.

Somente dessa difícil combinação entre rigor e imaginação política que resultará uma sociedade realmente nova — tanto no Chile, como aqui. Mãos às obras que o amanhã, que só seria outro dia, já está sendo.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.