Bolsonaro e Paulo Guedes: cresce a impopularidade, também cresce a dependência

Ao menos à primeira vista, o comportamento errático do presidente atrapalha a economia. Isso, porque todo mundo pensa duas vezes antes de investir numa economia em que, a qualquer momento, o presidente pode demitir o ministro da área ou atacar o país comprador.

Ao lado disso, a conduta obscena de Jair Bolsonaro também acarreta as constantes quedas de popularidade. A depende da nossa experiência recente (Collor, Dilma e Temer), a perda de popularidade do presidente, ao enfraquecer o Executivo diante do Congresso, sempre gerou paralisia decisória

Olhando assim, desta soma entre instabilidade econômica e política, já seria hora dos agentes do mercado manifestarem impaciência ao governo.

Contudo, tanto no Congresso quanto no Mercado, a impopularidade de Bolsonaro não está desesperando ninguém

Por um lado, os parlamentares ocuparam o vácuo político e o Congresso está funcionar a todo vapor, ou seja, sem sinal de paralisia. Embora, inicialmente, o presidente tenha peitado a disposição do Congresso, agora o jogo virou. A cada pesquisa que reforça a desaprovação ao presidente, esse se torna ainda mais dependente ao Congresso (lembremos: o impeachment é um processo político). O presidente sabe disso, tanto que ficou contrariado com o vazamento do inquérito da Polícia Federal contra Rodrigo Maia (e uma das primeiras tarefas do novo Procurador Geral será engavetar o caso).

Por outro lado, a baixa popularidade deixa o presidente refém das classes financeira e empresarial que, em boa medida, ainda lhe aprovam. Caso pulem fora, o barco perde a sustentação, já que lhe restaria apenas o núcleo duro da extrema direita.

Uma vez que os agentes do mercado rezam a cartilha de Paulo Guedes, o presidente não poderá fazer com ele o mesmo que fez a Gustavo Bebianno, Joaquim Levy, Santos Cruz e, agora, está fazendo a Sérgio Moro. Se, no caso do ministro da Justiça, tinha um Intercept no meio do caminho, o ministro da Economia se afirma como indemissível e principal mediador entre Executivo e Congresso, ainda mais agora que está em lua-de-mel com Rodrigo Maia desde que o secretário da Receita, Marcos Cintra, parou de conceder as entrevistas desastradas.

Quem melhor exprimiu o resultado dessa união — de um lado, o Congresso disposto a realizar reformas; do outro, o governo com proeminência de Paulo Guedes — foi o presidente do Banco Itaú, Candido Bracher, ao afirmar: “O que tenho notado é que o avanço das reformas não tem sido influenciado pelas turbulências políticas.

Em termos econômicos, o que estaria dando certo no governo para que a face violenta do presidente fosse normalizada por frações do mercado? É certo que o governo Bolsonaro não está conseguindo recuperar o desemprego e enguiçar o PIB. Ainda assim, os ativos financeiros — que não raro respondem mais a especulação financeira do que ao crescimento real — estão bem ou, pelo menos, melhores que antes. Tomemos alguns exemplos:

— A queda da taxa Selic está beneficiando o mercado de capitais à medida que as pessoas largam a renda fixa e apostam em outras aplicações financeiras.
— O follow on das empresas estatais em processo de privatização (como a BR Distribuidora) agita a bolsa de valores, também beneficiada pela desoneração da folha de pagamentos que diminui os custos das companhias a curto prazo e aumenta a distribuição de dividendos.
— O retraimento do BNDES intensificou a busca por fundos de crédito, fundos imobiliários e debêntures de infraestrutura.
— A MP da Liberdade Econômica promete impulsionar as startups (o que naturalmente estimula os fundos de venture capital), além de facilitar os processos de reestruturação, fusões e aquisições realizados através de bancos, fundos e escritórios de advocacia.

O problema, claro, não é que o mercado esteja bem (isso é positivo!), mas que esse sucesso esteja desvirtuado da ativação do mercado de trabalho e do volume de investimento público e privado. Por isso, embora o desemprego não descanse e a popularidade do presidente despenque, Paulo Guedes é festejado nos eventos do mercado financeiro e, não menos importante, o presidente Bolsonaro é blindado pela parcela do mercado que está satisfeita com a expansão capenga da economia brasileira.

Neste contexto, o papel do presidente Bolsonaro parece secundário, o que significa que estaria debilitado para a disputa em 2022. No entanto, vale lembrar que, apesar da crescente impopularidade, o presidente mantém o controle do debate público e assim mina a ascensão de outras figuras políticas. Fora isso, mesmo nos momentos em que foi acuado, o presidente encontrou uma brecha para galvanizar seus apoiadores. No caso da Amazônia, por exemplo, Bolsonaro recuou, mas não sem antes eletrizar sua base ao insuflar o sentimento nacionalista contra o pleito de Macron pela “internacionalização” da floresta brasileira.

Portanto, é provável que o presidente caminhe assim até a próxima eleição, contando com a sorte de que novos fatos políticos (como a soltura do ex-presidente Lula) exacerbem a polarização que tão bem alimenta sua dinâmica política. Se alguém acha que a direita já tem algo melhor para oferecer, basta lembrar que Dória foi avaliado negativamente por 58% da população (segundo a recente pequisa da Atlas) e nada garante que Luciano Huck não irá desistir da disputa novamente (a Globo já anunciou que o apresentador terá que rescindir o contrato).

Tudo isso para dizer: é cedo demais para cravar que Bolsonaro é carta fora do barulho. Não exatamente pela sua força (por mais que tenha alguma), mas pela sua paradoxal fraqueza em termos de partido e popularidade, o que abre espaço para que outros hackeiem os rumos do governo.

Ao fim e ao cabo, eu diria que somente duas coisas são realmente ameaçadoras:

1) Uma crise externa que atemorize os investidores internacionais, descontrole o câmbio e deixe o Banco Central sem outra saída senão aumentar os juros. Nesse caso, a cabeça de Bolsonaro pode ser oferecida como bode expiatório para que uma nova rodada de ajuste fiscal seja vendida como solução definitiva.

2) O desemprego se mantenha elevado e o avanço da pauperização não seja coibido por nenhuma medida estrutural (isto é, diferente de ações passageiras como a liberação do FGTS), de modo que a insatisfação das pesquisas e os altos níveis de desemprego se traduzam, se não em manifestações de massa, no fracasso do PSL nas eleições municipais do ano que vem. Ou, ainda, no shutdown dos ministérios em consequência da falta de verba. Se for assim, o governo poderá ser obrigado a dar um cavalo de pau na política econômica de Paulo Guedes e repensar estratégias que afrouxem o aperto fiscal e dinamizem o circuito emprego-renda.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.