Inflação de alimentos, redução do auxílio emergencial, problemas no atendimento do INSS, queimadas no Pantanal, fim da queda da taxa de juros: uma série de notícias ruins que se acumulam e já afetam a percepção da população quanto ao futuro. Ao menos é isso que revela a pesquisa do XP/Ipespe divulgada na semana passada (15), vejamos alguns dados.

01- A percepção de que a economia está no caminho certo progredia desde maio e então parou, enquanto a impressão contrária voltou a crescer.

02- A confiança quanto a conservação do emprego parou de melhorar.

03- A perspectiva de pagar as dívidas piorou consideravelmente.

Só por esses dados, já é possível especular que o recente ganho de popularidade do presidente, na esteira do auxílio emergencial, deve perder fôlego nos próximos meses. E isso se torna ainda mais provável quando analisamos o que vem por aí: a retirada dos programas emergenciais que surtiram importante efeito de sustentação da demanda agregada e, por isso, garantiram a recuperação rápida após o choque inicial.

O Orçamento de Guerra, o auxílio emergencial e o programa de sustentação de empregos formais sairão de cena, ao mesmo tempo que o Teto de Gastos será retomado, o que significa, ao pé da letra, um corte de gastos no valor de quase meio trilhão de reais de 2020 para 2021.

Com a política fiscal comprimida pelo Teto, a tarefa de estimular a economia cai no colo da política monetária. Mas a taxa de juros, por outro lado, já está pressionada pelo prêmio de risco exigido pelos credores e, especialmente, pela desvalorização do real. Como vimos nas últimas semanas, a variação cambial gerou efeitos inflacionários sobre o preço dos alimentos, em especial dos que integram a cesta de consumo dos mais pobres (arroz, feijão, óleo). O que então desaconselha os novos cortes na taxa de juros que, de outro modo, dariam um empurrãozinho na economia.

Destaque para o deslocamento dos alimentos em relação aos demais preços que formam o IPCA.

O desemprego ainda vai crescer a partir da altura em que a procura por emprego aumentar, o que deve acontecer em janeiro após o fim do auxílio emergencial. Esses desempregados, no entanto, encontrarão um mercado de trabalho em que a pandemia acelerou a substituição de mão de obra pela automatização. Além do setor de serviços ainda limitado já que inúmeros estabelecimentos (restaurantes, hotéis, salões de beleza, clínicas, universidades) dependem da normalização da vida nas cidades, uma circunstância que não parece tão perto assim.

O presidente Bolsonaro cancelou o Renda Brasil em meio ao pito contra a equipe econômica, incapaz de mobilizar recursos para o programa de transferência de renda que substituiria o Bolsa Família. E sendo assim, afinal, o feitiço pode se virar contra o feiticeiro: se o auxílio emergencial serviu para melhorar a popularidade do presidente, também prendeu Bolsonaro ao programa de modo tal que a retirada do benefício, sem pôr nada em seu lugar, pode gerar consequências imprevisíveis.

São conhecidas as teses de diversos economistas (Thaler, Kahneman, Tversky) que assinalam como as pessoas seriam mais sensíveis às perdas inesperadas do que aos ganhos. Algo mais interessante, desta vez, pode estar em curso porque o auxílio emergencial não apenas neutralizou a pobreza, mas “mobilizou as redes de pobreza que estavam naturalizadas — desde o Bolsa Família até os autônomos que não tinham acesso a nenhum benefício — e os tornaram sujeitos do direito a não passar fome”, como afirmou o pesquisador Victor Hugo Viegas. Estaríamos diante de um programa que gerou um processo de subjetivação e mobilização — a exemplo de grupos no Facebook e Whatsapp em que as pessoas se ajudam a acessar o benefício — tanto que o mesmo Victor Hugo complementa: “Toda vez que se ameaça bloquear e cancelar o benefício, testemunhamos mobilizações multidinárias, sem chefia, onde nunca se imaginou tal mobilização. Na verdade gerou-se um potencial que ainda não tem direção.

Ao passo que a percepção econômica piora e as pessoas estão mais mobilizadas, consequências imprevisíveis podem ocorrer — e não é demais lembrar do evento que antecedeu Junho de 2013 quando, em maio daquele mesmo ano, as agências da Caixa foram depredadas após o boato de que o Bolsa Família seria suspenso.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.