Bolsonaro sai fortalecido da ONU

Até o início do governo, não faltou quem jurasse que a faixa presidencial induziria Jair Bolsonaro nos termos da institucionalidade democrática. Erraram feio.

Agora, a cada pronunciamento solene, ainda há quem suponha que o presidente abrirá mão da beligerância em nome de algum tipo de racionalidade administrativa. Como provou o discurso na ONU: nada mais errado que achar que Bolsonaro deixará de ser Bolsonaro.

Pior que isso, talvez, é achar que a fala foi um desastre só porque ela realmente foi.

Já era hora de saber que alguém que ganha uma eleição possui cálculos políticos próprios e, não raro, certeiros. Vale a lógica bem exposta pelo general Heleno: “A repercussão com os nossos adversários, sendo ruim, é sinal que o discurso foi muito bom.”

Que o presidente falaria um sem-número de mentiras e besteiras, isso nós sabíamos. No entanto, a desinibição de Bolsonaro foi inédita.

Em janeiro, quando discursou no Fórum Econômico Mundial de Davos, Bolsonaro falou apenas seis minutos e parecia dublê de Michel Temer. Quando visitou a Casa Branca em março, ele foi pragmático, inclusive sobre a situação da Venezuela que então se acirrava

Desta vez, por mais previsível que tenha sido, conseguiu ser eloquente. Foi bruto e agressivo, mas não chegou ao ponto de perder a linha, sobretudo porque evitou elogios à ditaduras (como disse quando esteve no Chile) ou polêmicas tal qual a afirmação de que o nazismo era de esquerda (como fez ao visitar o museu do Holocausto em Israel).

Até mesmo a dificuldade em ler no teleprompter foi afagada pelo tom de voz firme. O presidente não pareceu constrangido pela presença de importantes chefes de Estado a exemplo de Angela Merkel. Como escreveu Daniel Riiter: “Bolsonaro falou o que pensa, como se estivesse no Palácio do Planalto ou no Vale do Ribeira.” E isso, afinal, tem um valor considerável para alguém que conquistou o eleitorado não pela razão ou estratégia, mas por falar o idioma da força.

Bolsonaro aproveitou a ocasião para reagrupar as forças do seu entorno. No momento em que o partido da Lava-Jato ameaça largar o bolsonarismo, o presidente afirmou que Sérgio Moro é o símbolo do país. Para os evangélicos, criticou as perseguições religiosas e citou o Evangelho de João. Falou em soberania e elogiou o protagonismo do Brasil nas Missões de Paz, o que agradou os militares. Reforçou a importância em derrotar o socialismo, no mesmo momento em que Lula pode ser beneficiado por julgamentos no STF. Reafirmou o pacto liberal, ao mesmo tempo que não citou a impopular reforma da Previdência. Os ruralistas, por sua vez, ouviram que a Amazônia é um lugar preservado e com riquezas a serem exploradas — fake news, claro, mas que desta vez veio embrulhada na carta do Grupo de Agricultores Indígenas e na presença da indígena Ysani Kalapalo na comitiva do país.

No fundo, é uma colcha de retalhos sem muita coerência…. mas cada um tira seu quinhão, divulga o trecho nos 140 caracteres do twitter e ficam todos satisfeitos.

E não, o mundo não ficou de queixo não. Não que o discurso não tenha sido aberrante a ponto de contradizer a tradição diplomática do país. Mais do que isso, num mundo com Donald Trump, Boris Johson, Vladimir Putin e o capitalismo autoritário de Xi Jinping, fique realmente abismado quando Bolsonaro abre a boca. Até porque, logo depois do brasileiro, o presidente americano fez um discurso com chavões parecidos (“o futuro não pertence aos globalistas, mas aos patriotas”).

Talvez ninguém ache que Bolsonaro é o convidado ideal para um jantar diplomático — no entanto, entre isso e sanções comerciais severas, ainda falta muito. Antes, é certo que o Brasil servirá como espantalho por países mais inteligentes, como foi caso de Macron que atacou a política ambiental do Brasil para se aproximar dos verdes do seu país. Ao lado disso, os estrangeiros também se aproveitam do misto de neoliberalismo e autoritarismo do Brasil que está transformando o país numa plataforma internacional de valorização financeira — sobretudo porque os congêneres americanos, húngaros e poloneses não são exatamente liberais como Bolsonaro.

No final das contas, quando Bolsonaro ou Trump fazem um discurso cheio de anacronismo, eles também nos põem numa posição anacrônica. Afinal, de modo natural, elegemos Bolsonaro como inimigo e então assumimos a defesa acrítica daquilo que ele ataca — neste caso, o multi-lateralismo ilustrado em políticas de livre-mercado e organizações como ONU e União Européia.

Não basta criticá-los e repetir os errados do passado. Em outras palavras: é preciso criticar os gestos esdrúxulos de Bolsonaro e Trump, sem que isso se torne um desejo inconsciente de retornar ao ponto exato em que nasceu a ascensão da extrema direita (ou não foram as políticas de ajuste fiscal e pró-imigração da União Européia que deram vazão a Salvini na Itália ou ao Brexit na Inglaterra?).

Como escreveu Simone Weil: “Quem é apenas incapaz de ser tão brutal, tão violento, tão desumano quanto o outro, sem contudo exercer as virtudes contrárias, é inferior a esse outro seja em força interior, seja em prestígio; e não se sustentará no confronto com ele.”

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.