Castor de Andrade e Bolsonaro: do homem cordial ao torturador sem remorso

Bolsonaro já criticou o carnaval em post obsceno a respeito do golden shower. Atacou o samba-enredo da Mangueira campeão em 2019. O carnaval é uma rara aglomeração que o presidente desincentiva e não à toa que seus seguidores insistem na tese descabida de que a pandemia se alastrou no Brasil por causa do carnaval de 2020.

Desta vez, coube ao ministro do Turismo desmerecer a festa no mesmo dia em que Bolsonaro publicou uma série de decretos que flexibilizam, ainda mais, a política de controle de armas e munições, incluindo a ampliação do limite de quatro para seis armas que cada cidadão pode ter. Como indagou o sociólogo Gregório Grisa, “quem precisa de seis armas a não ser a milícia?

A Rede Globo, por sua vez, aproveitou o feriado carnavalesco e lançou o documentário Doutor Castor sobre a vida de Castor de Andrade, um dos chefes do jogo do bicho carioca e patrono do clube Bangu e da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

Assim como Bolsonaro, a ascensão de Castor está diretamente associada a formação das milícias da Baixada Fluminense. A partir dos anos oitenta, os contraventores do jogo do bicho se mobilizaram contra o tráfico de drogas cujo poderio crescente ameaçava os interesses dos bicheiros — como a proibição de instalação de máquinas de caça-níquel em territórios dominados pelas facções, por exemplo. Os bicheiros então espalharam a imagem do bandido como o principal inimigo da cidade e a antítese perfeita do cidadão de bem — “Bicho é coisa querida, amada pelo povo. Tóxico é odiado. Por isso a gente não deve misturar”, afirmou o próprio Castor. Ao mesmo tempo que recrutaram e patrocinaram grupos armados, muitos dos quais formados por ex-agentes da repressão da ditadura militar, em nome da manutenção dos seus interesses territoriais. Foi assim que “a mistura de violência policial e militar com a contravenção formou a base da rede clandestina de violência paramilitar que está na origem dos modelos milicianos”, como contou Bruno Paes Manso em A República das Milícias.

O outro lado da figura de Castor Andrade diz respeito a via cultural e emocional pela qual o bicheiro se tornou popular ao investir em duas das maiores paixões nacionais, o futebol e o carnaval. Como presidente de honra do Bangu Atlético Clube, alcançou o vice-campeonato brasileiro de 85. Já na Mocidade Independente de Padre Miguel, Castor conquistou cinco títulos para a escola que até então nunca tinha sido campeã. O futebol e o carnaval, tidas como iniciativas sociais que reproduzem formas de sociabilidade à primeira vista dissociadas do crime, serviram como engenho simbólico de legitimação da sua figura quase mítica e cotejada por artistas e socialites. “Ele fazia o personagem do carioca apaixonado por samba e futebol”, contou um dos entrevistados do documentário da Globo. Outro afirmou que “ninguém o via como contraventor (…) ele fez o esforço para sair das páginas policiais e conseguiu”.

Por essa ótica, não surpreende que Castor de Andrade tenha angariado a tamanha fama e veneração que o filme documenta. Além de associar sua imagem aos símbolos nacionais que melhor representam o espírito dos seus conterrâneos, o futebol e o carnaval, assistimos um Castor que chama atenção pela “lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam”, como dizia Sérgio Buarque de Holanda a respeito da figura do patrão cordial. A cordialidade do patrão, enquanto elemento definidor das relações sociais brasileiras, é retórico e cativante a ponto de surtir uma tolerância — ou, pior, uma reverência — a figuras como Castor de Andrade com base numa “ética de fundo emotivo” em que o afeto substitui a razão como motor da adoração.

Entre Castor de Andrade e Jair Bolsonaro, no entanto, dá-se passagem do homem cordial para o torturador sem remorso. O ídolo do ex-capitão não é Geisel, Castelo Branco e nem mesmo Médici, mas o coronel Brilhante Ustra. Embora Castor e Bolsonaro tenham em comum a trajetória apoiada nas milícias cariocas, explicar a popularidade de Jair é mais difícil. A veneração a Castor de Andrade, assim como de líderes “populistas”, pode ser compreendida pela lógica cultural de afeição a cordialidade do patrão, incluindo a disposição desses em atender certos interesses objetivos dos que os veneram (a lógica do rouba mas faz ou, no caso de Castor, do mata mas faz). Já a popularidade de Bolsonaro — em quem só se enxerga um carisma sem cordialidade e um ódio descarnavalizado — deixa-nos horrorizados, estupefatos e não menos incompreendidos. Para vencer Bolsonaro em 2022, será precisa reinterpretar o país do carnaval à luz do paradoxo de que boa parte dos brasileiros veneram um líder que odeia o carnaval, e sequer faz questão de esconder isso.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.