Centrão capenga: a saída de DEM e MDB do blocão

A última semana foi marcada pela notícia de que o DEM e o MDB estariam de saída do Centrão. O que isso significa? Talvez menos do que a manchete insinua.

O que estavam chamado de “Centrão” é o bloco que incluía, além do DEM e o MDB, partidos como o PP, PL, PSD e PTB. De modo resumido: é o bloco de parlamentares, liderado pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), que assumiu o protagonismo ao longo do ano passado e liderou a aprovação de reformas importantes como a nova Previdência. Uma vez que não dependiam do toma-lá-dá-cá com o Planalto, esse Centrão era, melhor dizendo, um Congressão, atuando numa espécie de parlamentarismo branco em que Rodrigo Maia figurava o primeiro ministro informal, ao mesmo tempo que a centralidade política do presidente erodia.

Só quando a corda do impeachment tocou seu pescoço que Bolsonaro se voltou ao blocão em busca de proteção. Ali, com efeito, encontrou numa fração do bloco, representada pela figura do deputado Arthur Lira (PP-AL), um meio de negociação. De um lado, o presidente oferecia cargos e verbas em troca do apoio dos parlamentares em votações no Congresso, em especial quanto ao impeachment. Do outro, Arthur Lira queria o apoio do governo para se gabaritar a substituto de Maia na presidência da Câmara por meio da eleição que ocorrerá em fevereiro.

O Ovo (1928) de Tarsila do Amaral.

Olhando por esse ângulo, não surpreende que a aproximação de Bolsonaro tenha dividido o antigo Congressão e originado, além do Centrão liderado por Arthur Lira, um novo bloco formado pelos egressos DEM e MDB juntamente ao PSDB.

No caso do DEM, a participação no superbloco se tornou pouco interessante já que o democrata Rodrigo Maia passaria a dividir a liderança com Lira e o próprio Planalto. Salvo o fato de que o DEM nunca foi Centrão raiz — basta lembrar que nos governos petistas sempre formou a oposição de direita ao lado aos tucanos.

Quanto ao MDB, saiu do bloco porque apostando que Maia apoiará o deputado Baleia Rossi (PMDB-SP) na disputa pelo comando da Casa, o que deve garantir o retorno do partido ao posto onde já esteve com deputados como Michel Temer, Henrique Alves e Eduardo Cunha.

A saída de DEM e MDB do Centrão foi rapidamente lida como uma derrota do governo Bolsonaro — e não deixa de ser, afinal, a quimera de uma maioria governista no Congresso foi por água abaixo de vez. A questão, no entanto, é que falar em “derrota” funcionaria melhor se o governo tivesse feito um verdadeiro esforço para fortalecer o bloco e coibir a fragmentação.

O presidente Bolsonaro, por sua vez, limitou-se a garantir uma coalizão de sobrevivência, mas não uma coalizão de governo propriamente dita. Em lugar da distribuição dos ministérios proporcional ao tamanho das bancadas recém-alinhadas ao governo, o Centrão só detém os ministérios da Comunicação e do Desenvolvimento Regional, enquanto os militares não abriram mão de nenhum dos seus ministérios e nem mesmo a pressão internacional foi abrir as vagas de Ernesto Araújo (Itamaraty) e Ricardo Salles (Meio-Ambiente).

Uma vez aliado ao governo, o novo Centrão descobriu o mesmo que o vídeo da reunião ministério já tinha provado ao Brasil inteiro: um governo que não tem nenhum projeto de governo minimamente coerente e em relação ao qual os recém-aliados poderiam aderir, dividir tarefas de execução e propor ajustes e concessões programáticas. Durante a votação do Fundeb, por exemplo, o líder Arthur Lira sequer conseguiu transmitir aos parlamentares qual era a posição do governo porque, é bom que se diga, nem mesmo Guedes a sabia (como ficou claro ao entrar na discussão só nos últimos minutos e com uma proposta totalmente aquém do andamento da discussão). Sem falar no próprio Bolsonaro — como sempre incapaz de inspirar qualquer confiança — responsável pelos vetos, sem diálogo prévio, aos pontos do Marco do Saneamento Básico que tinham sido anteriormente acordados pelos parlamentares.

O presidente, com efeito, já está em campanha para 2022 enquanto viaja pelo país e explora o capital político do auxílio emergencial e da inauguração de obras públicas. Não é difícil imaginar , ao fim e ao cabo, que dependeremos do parlamentarismo branco de Rodrigo Maia para garantir o mínimo de ordem e governança em Brasília nos próximos meses. Mesmo que o bloco de Maia (DEM, MDB e PSDB) conte apenas com 94 deputados, o presidente da Câmara tem acesso ao apoio de parte do bloco da oposição (131), dos independentes (41) e mesmo de parte do Centrão (236) que oficialmente está com o governo mas ainda é fiel a Maia, a exemplo do ocorrido na votação Fundeb.

Como ficou claro na eleição de 2018 — em que a crise econômica resultou na renovação recorde dos membros da Câmara (52%) e do Senado (87%) — o colapso da renda e o aumento da pobreza não caíram só nas costas do presidente, mas os parlamentares também foram responsabilizados. Por isso, a despeito da inação e falta de liderança do governo, os deputados não estão dispostos a paralisar as decisões e o reformismo do Congresso. Mas tampouco, no entanto, são capazes de fazer milagre.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.