Com ou sem Bolsonaro, não haverá democracia sem combate ao racismo

“Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar”, escreveu Carlos Drummond de Andrade em seu famoso poema de 1940. Não sabiam se traziam bailarinas, imigrantes ou rádios, completou o poeta. A “playboyzada do Leblon”, corrigiu Matheus, tampouco viram a bicicleta ser roubada. Sabiam quem acusar, no entanto.

Sem Título (2016) de Rosana Paulino

O vídeo gravado pelo próprio Matheus é estarrecedor. A autoridade do casal em inquirir o professor de surf, duvidar de suas palavras e parar apenas quando o cadeado da bicicleta de Mateus — tirado das mãos do dono, diga-se — não abriu com a chave que o garoto branco possuía. “Eu não te acusei, só estou te perguntando”, ele disse. A polícia que chega atirando é a contraparte da classe média que o faz acusando.

A identificação racista começa na cor da pele e tão logo se traduz na capacidade de consumo e na circulação social. Mateus não poderia ser dono de uma bicicleta elétrica. Não passearia no Leblon à toa. Basta observar os jornais a explicar o que Mateus estaria fazendo no bairro. Sueli Carneiro escreveu que “o negro chega antes da pessoa, o negro chega antes do indivíduo, o negro chega antes do profissional, o negro chega antes do gênero, o negro chega antes do título universitário, o negro chega antes da riqueza.” E completou: “Todas essas outras dimensões do indivíduo negro tem que se resgatadas a posteriori. Depois da averiguação, como convém aos suspeitos a priori.”

A escravidão não foi um mero sistema econômico, mas tornou a cor o marcador de diferença mais elementar da sociedade brasileira. Mesmo após o fim da escravidão, um ditado popular sabiamente dizia: “A liberdade é negra, mas a igualdade é branca”. Foi assim que o verdadeiro ladrão da bicicleta teve tanta felicidade em arrombar o cadeado e sair com a bicicleta em mãos. Era branco.

“Não quero dar ênfase só pro meu caso, quero dar ênfase para esses casos, para que as pessoas, quando se veem numa situação de desespero, não pensarem que foi o preto que roubou”, lembrou Matheus. Se a luta antirracista também envolve aos brancos (dentre os quais me incluo) é porque ela integra uma agenda republicana da qual depende da democracia brasileira. Uma agenda que não está restrita a casos específicos, já que se reproduz de maneira estrutural. Que não dura apenas o momento do levante, como no poderoso Black Lives Matter, mas se desdobra no dia-dia porque espraiado no cotidiano, seja no Leblon, seja no resto do país.

Em outro caso recente, um cliente negro foi acusado de furtar um sapato num shopping de Cuiabá. Mesmo que não tivesse culpa nenhuma, o mesmo admitiu: “Quando me vi cercado por seguranças querendo me conduzir lembrei do caso do João Alberto, morto pelos seguranças [do Carrefour]. Achei que algo pior poderia acontecer”. E esse pior está acontecendo nos mais das vezes.

Bastidores (1997) de Rosana Paulino

Além do preconceito em si, há o preconceito do preconceito. O brasileiro, em lugar de reconhecê-lo para melhor combatê-lo, ergueu uma história mítica do passado (a democracia racial) que recalca o racismo, e assim o perpetua. Gilberto Freyre é fundamental para entender o Brasil, mas que não esteja desacompanhado de Luiz Gama, Florestan Fernandes, Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez. As escolas e universidades, além dos veículos de imprensa, também precisam assumir a cartilha anti-racista.

“O “preconceito” não é um problema de ignorância, mas de algo que tem sua racionalidade embutida na própria ideologia”, disse Kabengele Munanga. Serve tanto como racionalização justificadora da pobreza (se há um coletivo inferior, legitima-se a pobreza desses); como agente de des-solidariedade social (um sujeito, embora da mesma classe, sente-se superior ao outro por causa da cor); e como gestor da luta de classes no centro do capitalismo (a redistribuição de renda do Welfare State baseada nas conquistas coloniais).

Muito se fala (com justeza) do expurgo do presidente, mas a luta antirracista é a condição primeira para a reconstrução democrática do país.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.