Contra o apartheid das vacinas

A descoberta das vacinas restaurou a esperança a nível global. Se não bastasse a conquista em tempo recorde, os imunizantes contra o vírus despontaram quase simultaneamente através de diferentes fabricantes e métodos de concepção, alguns até então inéditos. Desde ali, quase ninguém mais duvida que a vacina é a chance de superarmos a pandemia, muito embora isso esteja em perigo e dependa que os líderes não degenerem ao nacionalismo vacinal. O termo diz respeito a postura dos países ricos que não apenas priorizam a vacinação dos seus cidadãos, mas o fazem em detrimento dos países pobres que sucumbem a falta de imunizantes. Na mensagem de Páscoa, foi a vez do Papa Francisco cobrar um internacionalismo vacinal que extrapole o nacionalismo e, só assim, a própria pandemia.

Países como Estados Unidos, Reino Unido e Israel estão na dianteira da vacinação mundial por duas questões principais: a) investiram prematuramente em vários imunizantes, firmando contratos futuros e arcando com boa parte dos custos com a pesquisa e o desenvolvimento; b) possuem infraestrutura e mão de obra especializada para a produção das vacinas em alta escala, além de facilidades para o armazenamento e distribuição.

Chamada do governo de Wisconsin para a vacinação dos cidadãos americanos de 16 anos ou mais.

Segundo uma análise recente do Banco Mundial, 82% dos países de alta renda já começaram a vacinação contra apenas 3% dos países de renda baixa, razão pela qual americanos de dezesseis anos estão prestes a se vacinar enquanto idosos e profissionais de saúde do terceiro mundo ainda estão desprotegidos. Assim cresce o risco de que o acesso desigual às vacinas obrigue os países subdesenvolvidos a assumirem contratos onerosos para terem os imunizantes no curto prazo, e acabem prejudicando a economia no longo prazo, além de aumentar a disparidade entre as nações pobres e ricas. Ou, pior, que o apartheid vacinal engendre movimentos negacionistas e antivacinas nos países em abstinência.

O nacionalismo vacinal do Reino Unido e dos Estados Unidos não deixa de ser uma reação a ascensão do nacionalismo, em ambos os países, nos anos anteriores à pandemia. No caso do Reino Unido, a posição de Boris Johnson em defesa do Brexit tornou imperativo que o primeiro-ministro não medisse esforços em desbancar a União Europeia na corrida pela vacinação. Foi em nome disso que o britânico não apenas investiu precocemente na vacina inglesa, a Oxford-AstraZeneca, como estipulou cláusulas contratuais para receber as 100 milhões de doses inicialmente produzidas nas três fábricas em solo britânico. Ao contrário da estratégia da União Europeia que combina a vacinação interna com a exportação das vacinas e só não esperava que atrasos na produção resultassem numa vacinação mais lenta que a planejada. O êxito de Johnson submeteu os líderes da Euro ao crivo dos seus cidadãos que os acusam de permitirem a exportação das vacinas em detrimento dos próprios europeus, o que já tem levado países como a Itália a barrarem a exportação dos imunizantes produzidos no país.

Grau de consumo doméstico ou exportação das vacinas produzidas em cada país. (Gráfico de Gita Gopinath)

Nos Estados Unidos, o nacionalismo que Joe Biden mobilizou ao longo da campanha presidencial para superar o american sex-appeal de Donald Trump e tocar o coração dos americanos tem se traduzido, por um lado, numa política doméstica fortemente progressista, porém combinada a uma política externa conservadora, sobretudo no que diz respeito a distribuição das vacinação. No limite, a postura de Biden mal se diferencia do America First de Trump, para quem as vacinas americanas produzidas no país, a Pfizer e a Moderna, só seriam compartilhadas uma vez que as necessidades dos americanos estivessem totalmente supridas. É assim que Biden está agindo visto que nenhuma vacina produzida em chão americano aplicada fora dos Estados, nada comparado ao papel de liderança global que o país exerceu no combate à Aids através do Emergency Plan for AIDS Relief, responsável pelo financiamento global de programas de prevenção à doença. Que os americanos venham em primeiro lugar não deveria significar que estejam sozinhos.

O desafio político de Joe Biden e Boris Johnson não é fácil, afinal, diz respeito a convencer a população de que os riscos de longo prazo em manter o vírus circulando ao redor do mundo são maiores que os benefícios de vacinar os próprios cidadãos no menor tempo possível. As duas exceções são a China e Rússia, os dois maiores exportadores de vacina e não à toa países cujos presidentes estão consolidados e dependem menos da aprovação pública. Ao mesmo tempo que implementaram medidas efetivas de combate ao vírus no interior dos seus países, os líderes orientais priorizaram a exportação das vacinas objetivando não apenas ganhos comerciais, mas especialmente diplomáticos. A influência dos governos sobre as respectivas vacinas se explica porque a vacina chinesa produzida pela Sinovac, embora uma empresa privada, teve as pesquisas financiadas pelo governo chinês, enquanto o Instituto Gamelaya, criador da russa Spunitk V, é controlada diretamente pelo Estado.

Para realmente virar o jogo, será preciso uma reação global muito além da ação individual de alguns países, sobretudo que inclua demandas como a quebra de patentes, o refinanciamento da OMS e o apoio tecnológico a produção local de vacinas e insumos, além da compra e distribuição dos imunizantes para os países que não têm recursos financeiros.

O nacionalismo vacinal deve ser contraposto ao fato de que muito em breve os riscos internacionais vão pôr em xeque os esforços nacionais já que, em termos sanitários, enquanto boa parte da população mundial segue desprotegida, a circulação do vírus aumenta a chance de surgimentos de cepas que diminuem a eficácia das vacinas existentes. Também o comércio global vai seguir capenga até que a maioria dos países amenizem a pandemia e expurguem os riscos de novos lockdowns e fechamento de fronteiras. Em outras palavras: para a derrotar a pandemia em um lugar, será necessário derrotá-la em todos.

Embora o nacionalismo vacinal seja efetivo para convencer os eleitores que vão elegê-los na próximas eleições, os líderes não devem perder de vista os desafios globais que vão determinar como entrarão para a história.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

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