Coronavírus arregaça uma economia já prenhe de epidemias

É tentador taxar o Coronavírus como um evento sem precedentes. Em termos médico-sanitários, é possível que sim. Mas não foi a epidemia que amaldiçoou o crescimento mundial. Assim como tem gente sempre à procura de um Joesleyday ou uma Greve dos Caminhoneiros para externalizar a culpa, não faltam os mesmos tipos lá fora.

Sem título (1989) de Nuno Ramos

É óbvio que uma crise sanitária de proporção e duração incertas provocará consequências negativas à economia — ainda mais quando uma crise do petróleo explode ao mesmo tempo. No entanto, em vez de tratar o vírus como raio em céu azul, mais instrutivo é reconhecê-lo como pressionando uma economia que tem suas próprias epidemias.

Dito de outro modo: sozinhas, as vulnerabilidades da economia parecem pequenas, mas basta-lhes uma chacoalhada para que revelem como o fundo é mais embaixo. O resultado da Alemanha no 4º trimestre confirmou que a potência européia cresceu apenas 0,5% em 2019 com queda da produção industrial de 3,5% em dezembro (maior baque desde a última crise). No momento em que o Coronavírus atrapalha o crescimento chinês e põe o comércio mundial em xeque, rapidamente surgem presságios de uma recessão clássica (perda de dinamismo, falência de empresas, demissões em massa) até mesmo numa economia como a alemã. E talvez isso explique o temor chinês em inicialmente admitir a existência de uma nova epidemia.

Se uma recessão realmente pode acontecer (e eu acho que sim), é porque, no fundo, a crise de 2008 ainda não acabou. Vamos recapitular ao menos como saímos dela.

Para “resolvê-la”, os Bancos Centrais, além de injetarem 22 trilhões de dólares para salvar as instituições financeiras, deram início a políticas monetárias ultraexpansivas com o intuito de recolocar a economia nos trilhos do crescimento. Unindo isso a outros fatores estruturais — como a redução da demanda por crédito em razão do baixo crescimento e o aumento da poupança em consequência da elevação da expectativa de vida e da desigualdade de renda — explica-se como as taxas de juros atingiram os pisos históricos em vários países nos últimos anos.

Ocorreram então dois processos simultâneos. De um lado, as empresas acreditaram que o período de juros reduzidos seria ideal para aprimorar a estrutura dos balanços (melhorando a composição e alongando as dívidas) e projetar novos investimentos, de modo que desataram a contrair novas dívidas. Do outro, sem a antiga rentabilidade dos títulos públicos e com farta oferta de dinheiro barato na praça, os mais diversos investidores — seguradoras, fundos de pensão, fundos mútuos e ETFs, além dos bancos — mostraram-se interessados em comprar os débitos corporativos.

A dívida global está no patamar mais alto da história. (Gráfico extraído do Financial Times)

A questão é que o aumento da demanda agregada, em decorrência do crédito distribuído às empresas, não aconteceu. Em muitos casos, em lugar de aumentar os investimentos, os empréstimos serviram para atividades de fusão&aquisição e recompra de ações — movimento que inflou as Bolsas mundo à fora sem que o inchamento refletisse a crescente receita das empresas. Nas empresas que mais reverteram empréstimos em investimentos produtivos, o foco se deu na indústria 4.0 que tem baixa intensidade de capital e insumos, além poucos empregados. Já em outros casos, muitos dos quais precisam de poupança considerável para gerar uma unidade de investimento, as empresas alongaram as dívidas mas titubearam na hora de fazer os investimentos, numa situação em que, como escreveu Eleutério Prado Jr, “cada um deles fica esperando que todos os outros capitalistas elevem antes, por meio de seus gastos com novos investimentos, a demanda agregada e, em particular, a demanda por suas mercadorias”. O dinheiro sobra, portanto, mantendo-se nas altas esferas das finanças — incapaz até mesmo de levar a inflação para o centro da meta — enquanto o crescimento do sistema como um todo fica aquém do necessário para que as empresas quitem as dívidas com segurança.

A crise de 2008 — gerada pelo crédito desenfreado ao setor imobiliário — desembocaria numa situação em que as empresas estão tão alavancadas que qualquer choque as colocam em apuros. Se a querela comercial entre China e EUA já lhes dava muita dor de cabeça, o que dizer do Coronavírus que provoca um enorme problema de demanda (queda do consumo mundial) assim como de oferta (restrição dos insumos chineses)? Atualmente, parar a China significa parar a produção mundial, e essa será a primeira vez na história que o país estará no centro de uma crise global e o futuro é para lá de impreciso.

Caso uma série de empresas venha a ruir — como já está acontecendo com o derretimento das bolsas — os demais agentes que financiaram tais empresas também serão rapidamente afetados. Embora o processo seja menos dramático que o iniciado no sentido inverso — isto é, pela quebra dos bancos — não é difícil imaginar o seu potencial destrutivo. Como evitá-lo?

Crescimento da dívida corporativa nos Estados Unidos. (Gráfico extraído do Financial Times)

A primeira reação dos Bancos Centrais se deu em mais corte de juros, a exemplo do FED que realizou pela primeira vez, desde a última crise, um corte emergencial fora do calendário das reuniões periódicas. Contudo, se não bastasse a eficácia da política monetária que constatamos acima, isso pode estimular mais do mesmo endividamento irresponsável que está pondo a economia em risco.

Sem desconsiderar que os Estados assumiram dívidas relevantes para salvar o sistema financeiro, trata-se de apostar na política fiscal que aproveite o momento de inflação rastejante — o que sinaliza a capacidade ociosa das empresas — e as taxa de juros que já estão a furar os pisos e reduzindo os custos do endividamento. Como asseveraram Bradford DeLong e Lawrence Summers no importante Fiscal Policy in a Depressed Economy (2012), à medida que aproveitem os juros baixos e a ampla disponibilidade de meios produtivos os gastos públicos tendem a se auto-financiar em períodos de depressão — seja pelo aumento do quociente da relação dívida/PIB, seja pelo aumento das receitas.

O artigo de Delong e Summers foi parte influente do processo pelo qual, nos últimos anos, abandonou-se a fé cega na austeridade expansionista — teoria que basicamente defende que basta cuidar das contas públicas e o mercado fará o resto do trabalho — ao passo que economistas do porte de Olivier Blanchard (ex economista-chefe do FMI) passaram a defender que o expansionismo fiscal, no estágio atual da economia, não apenas acarreta poucos riscos de descontrole inflacionário ou da dívida pública, como tem um maior potencial de gerar crescimento e atrair a iniciativa privada do que a política monetária em voga. Sendo assim, não surpreende que o FMI tenha sido um dos primeiros a defender o uso da política fiscal para combater a crise do Coronavírus. E que o ministro das Finanças da Euro, Mário Centeno, tenha afirmado prontamente que as regras fiscais dos países membros serão flexibilizadas.

A partir de agora, com a missão de interromper o avanço do vírus o mais rápido possível, espera-se que as verbas sejam primeiramente destinadas como recursos para a saúde e a ciência. A Itália, por exemplo, anunciou um pacote de estímulos no valor de € 7,5 bilhões em que boa parte irrigará o orçamento da Saúde. Ao lado disso, é preciso ampliar os benefícios sociais pagos aos cidadãos para que arquem com a proteção ao vírus e as perdas que possivelmente sofrerão pelos dias parados. Enquanto as empresas, por sua vez, devem ser alvo de desonerações temporárias sobre a folha de pagamentos — como já estão fazendo China e Estados Unidos — para que não recorram a demissões em massa enquanto o vírus ainda se alastra.

No segundo momento, quando as quarentenas já não forem incompatíveis com a criação de novos empregos, os investimentos públicos serão o motor de aceleração do crescimento no pós-crise. A principal fiadora da aversão aos estímulos fiscais na zona da Euro, a Alemanha, já anunciou um plano de investimento público de 12,4 bilhões de euros para os próximos quatro anos, além de mais 8 bilhões para obras rodoviárias e ferroviárias. Em lugar da taxa de juros como a única variável da política econômica, a articulação mais cerrada entre as políticas monetária e fiscal — assegurando a demanda agregada em níveis dinâmicos — poderá garantir um ciclo de crescimento mais sustentável a economia mundial, sem o qual as empresas terão dificuldades quiçá insuperáveis de remediarem as dívidas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.