Uma coisa me chamou atenção na saída de Moro: as notícias especulavam mais a reação dos militares que do mercado. Saber se Paulo Guedes seria o próximo era menos importante que o desembarque dos fardados.

Isso é outro modo de dizer que a elite econômica perdeu o controle do processo que ajudou a desencadear. Nem o crescimento esperado, nem o presidente amansado.

Mais do que nunca, dependem dos militares. Seja porque conferem a legitimidade que resta ao governo, seja pelo acirramento do conflito entre capital e trabalho na esteira da crise.

É assim que deve ser lido o lançamento do plano de retomada econômica sem a liderança da equipe econômica, mas dos militares. Para quem esperava alvoroço, o empresário Synésio Batista, presidente da Abrinq, traduziu o sentimento: “Não teve ataque ao ministro Paulo Guedes. É um plano como militar pensa. E o plano não é ruim para o Brasil.

Serie Mangueira nº3 (1969) de Ivan Serpa.

No momento em que partes do governo deságuam, os militares permanecem e querem garantir, além da ordem, a sobrevida do governo — seja com Bolsonaro ou Mourão.

Sabem, no entanto, caso a crise econômica se arraste até 2022, é provável que saíam do governo, outra vez, como fracassados. Contra isso, o recém-lançado Pró-Brasil — baseado em investimentos públicos em obras de infraestrutura — hackeia o programa econômico de Guedes que nem precisou de pandemia para desiludi-los com o PIBinho de 2019.

Para o ministro da Economia, a participação do Estado alijaria os investidores privados da economia, os quais só seriam convencidos pelas reformas estruturais e o ajuste das contas públicas. A lógica do Pró-Brasil é que as obras públicas, além de remediarem alguns entraves logísticos, geram empregos e a demanda necessária para suscitar a retomada do crescimento a fim de atrair o empresariado nacional. Essa seria a única maneira de animá-los enquanto a crise lhes devoram a poupança e o apetite ao risco, inclusive dos investidores internacionais (basta ver a decisão da Boeing em cancelar a compra da Embraer).

Quem decerto não esperava a rasteira era o ministro Paulo Guedes. Não só porque parecia confortável como Posto Ipiranga, mas porque a pandemia já lhe fizera tomar medidas radicalmente contrárias ao DNA liberal (renda básica emergencial, crédito subsidiado via bancos públicos, compra de equipamento pelo aumento da dívida). O equívoco, dessa vez, é que teriam a data de validade ao final da pandemia, sendo que os militares planejam o “keynesianismo” até 2022.

O ministro da Economia reagiu e o presidente, por sua vez, reiterou que “o homem que decide a economia no Brasil é um só: Paulo Guedes” — assim como na Saúde era Mandetta e na Justiça era Moro. Daqui em diante, é certo que teremos mais uma disputa entre liberais e desenvolvimentistas no interior do próprio governo, assim como tivemos nas gestões anteriores (“Pedro Malan-Gustavo Franco x José Serra-Dorothea Werneck” e “Palocci-Zé Dirceu x Dilma-Guido Mantega”).

Se o general Braga Netto, ao lado do ministro Tarcísio (Infraestrutura), estão em vantagem sobre Guedes, isso não decorre só da legitimidade que os militares conferem ao governo. Outro ativo é a promessa de melhor relação com o Congresso, já que um dos mentores do Pró-Brasil é o ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), articulador das reformas trabalhista e da Previdência. E ainda mais decisivo, é que o programa desenvolvimentista responde melhor a coalizão de interesses a reboque da pandemia:

Industriais = na saída da crise, não querem ouvir falar das pautas liberais de Guedes como a abertura comercial, a participação estrangeira em licitações públicas, os cortes no sistema S e o encolhimento do BNDES.

O general Braga Netto já se reuniu com Paulo Skaff e a jornalista Miriam Leitão comentou na saída: “Guedes sabe que quando militares e o presidente da Fiesp se encontram, como ontem, para discutir um plano econômico, não há espaço para o seu projeto liberal”.

Grande empresariado da construção civil = serão beneficiados pelos investimentos em infraestrutura que agregam a demanda do setor, especialmente das grandes empreiteiras, as únicas com know how para obras de grande porte.

Médio empresariado do varejo e serviços = decepcionados com Guedes, incapaz de cumprir a prometida desoneração da folha, apostam que a rápida criação de empregos pode se traduzir no dinamismo do mercado de consumo e serviços.

Bancos = não abrem mão da defesa do ajuste fiscal, mas não estão como na crise de 2008 em que os ativos financeiros foram mais duramente afetados. Agora, a direção de causalidade é inversa — da economia para o mercado financeiro — de modo que estão mais preocupados com as falências das empresas.

Classes populares = as obras de infraestrutura não exigem mão de obra qualificada e ainda assim são intensivos em força de trabalho, o que atinge o contingente do subproletariado que normalmente tem dificuldades de arrumar emprego.

Essa coalizão de interesses não está tão distante da “composição heterogênea, oligárquica e quase sempre liberal que sustentou, política e socialmente, o sucesso econômico do desenvolvimentismo militar brasileiro”, como descreveu José Luis Fiori. O milagre econômico se baseou na combinação de obras públicas, arrocho salarial, mão-de-ferro sobre os sindicatos e manutenção do patrimonialismo, características que estão novamente presentes.

A diferença é que o arcabouço institucional dos tempos da ditadura — sobretudo as grandes estatais — já nem existem mais, o que confere razão ao empresário Flávio Rocha que tranquilizou os pares afirmando que “não é a volta do protagonismo do estado”.

Sem ceder aos excessos do II PND de Geisel, os militares patrocinarão os investimentos públicos, sem abrir mão da defesa das reformas estruturais — talvez o suficiente para manter Paulo Guedes, feliz em contar com os militares para desmobilizar as massas, como o mesmo sugeriu na ameaça do AI-5.

Se há boas chances de dar certo, é porque a elevada ociosidade e o desemprego devem garantir um crescimento acelerado e sem inflação. E a vantagem de governar um país que não cresce há anos é que qualquer espirro, por menor que seja, já parece um milagre.

Com Bolsonaro ou Mourão, os militares talvez encontraram uma saída para perdurar no poder.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.