Doria não é tucano. O tucano que se chama Dória.

O fiasco do PSDB nas eleições de 2018 parecia caminho sem volta. O número de deputados e senadores caiu quase pela metade. Dos seis governadores, sobraram apenas três. Na mesma proporção da ascensão de Bolsonaro, o partido tucano se reduziu a um importante partido da base parlamentar mas não mais que o décimo maior da Câmara, bem distante do auge na década de noventa. “O PSDB acabou”, afirmou Lula em entrevista na sede da Polícia Federal de Curitiba.

Não muito longe dali, a Convenção Estadual do DEM paulista parecia um universo paralelo ao de Lula. O membro do partido Rodrigo Garcia, vice-governador de São Paulo, foi anunciado como sucessor ao cargo em 2022. O atual governador João Dória foi saudado como “futuro presidente do Brasil”, ressaltando o verdadeiro objetivo da carreira meteórica do político, o que já não é nenhuma novidade. Se não bastasse a tentativa descarada de varrer seu padrinho político, Geraldo Alckmin (PSDB), nas últimas eleições, Dória está em campanha desde o fim do 2º turno, viajando ao redor do país para compromissos políticos e eventos organizados por empresários. O próximo passo será mês que vem, desta vez na convenção do PSDB, em que Bruno Araújo, nome ligado a Dória, assumirá a presidência do partido e promete intensificar o dorismo dentro do tucanato, o que significará o expurgo de velhos nomes como Aécio Neves, Eduardo Azeredo, Beto Richa e Alberto Goldman. O PSDB acabou, Dória acabou de nascer. Alguém precisa dizer isso ao Lula antes que o PT se engane novamente, pois a eleição de 2022 será mais acirrada do que parece.

De todo modo, a ascensão do dorismo levanta perguntas a respeito do PSDB, principalmente daqueles que ainda conectam o partido ao ideário social-democrata — o que não acho que seja o caso de Lula, e nisso ele está certo. É verdade que o partido surgiu em reação a guinada à direita do PMDB. Depois da acachapante derrota de Ulysses Guimarães nas eleições de 1989, o PMDB sofreu uma renovação que seria definitiva. À medida que grupo conservador de Orestes Quércia ganhou força, Franco Montoro, Mario Covas, Fernando Henrique Cardoso enxergaram a criação do PSDB como meio de preservar as qualidades de centro-esquerda do antigo partido. Para isso, a orientação política foi cravada no próprio nome do partido. A questão é que lhe faltavam as bases populares de um partido social-democrata, já que desde que surgiu o PSDB foi constituído por uma classe média urbana, profissional e universitária que não se reconhecia no rodeio anacrônico do PMDB (ou no PRN de Collor), mas tampouco no PT.

Não à toa que rapidamente o partido assumiu a modernização como linha política, mesmo que isto significasse assumir posturas liberais. Como conta FHC, a questão principal tornou-se “uma profunda revisão na organização e no modo de atuação do Estado, para torná-lo capaz de se haver com os desafios dos mercados globalizados e, sobretudo, da sociedade contemporânea”. A partir de então, segundo os ditames da globalização e a nova vocação cosmopolita, o partido privilegiaria os mecanismos do mercado (e não do Estado) como meio de atingir objetivos, ainda assim, social-democratas. Ao menos era isso que prometiam as lideranças do partido: a livre orientação dos mercados e a estabilidade dos preços em nome da efetivação dos direitos da carta de 1988.

O PSDB seria novamente empurrado à direita através das alianças com o Partido da Frente Liberal (PFL) durante a campanha de 1994. Como escreveu José Luiz Fiori, “os donos do sertão eram considerados atrasados e ignorantes mas de baixo custo”, garantindo a eleição de FHC e a base de sustentação para as reformas econômicas do governo. O partido elegeu também os governadores de São Paulo (Mario Covas), Rio (Marcello Alencar) e Minas (Eduardo Azeredo). No entanto, já naquela altura, alguns dos fundadores (principalmente de origem social-cristã como Euclides Scalco) saíram do partido em discordância aos novos membros e alianças. Para levar à cabo o “choque de capitalismo” (segundo a célebre expressão de Covas), relativo ao programa de abertura comercial, privatização e reforma administrativa do Estado, os tucanos abraçaram o PMDB então encabeçado pela turma do pudim de Michel Temer e Moreira Franco. Foi quando saíram do PSDB os nacionalistas (como Ciro Gomes) que vinheram do antigo PMDB.

Quando o PT chegou ao poder e adotou o modelo de desenvolvimento que o transformou no partido social-democrata do país, o PSDB apostou em radicalizar os desvio anteriores rumo à direita. O momento coincidiu com a derrocada definitiva do malufismo, corrente de extrema direita que perdurava desde os anos 70 mas que ficou órfã quando uma série de escândalos desmoralizou Paulo Maluf. Com efeito, o PSDB não tardaria a preencher aquele vácuo. A partir do momento em que os órfãos do malufismo integraram a base do partido, o partido, querendo ou não, viu-se destinado a representar e internalizar cada vez mais as visões daqueles grupos. Já nas eleições de 2006, Alckmin insistiu em um discurso mais conservador nos costumes, não sem antes destacar a urgência do braço forte e armado do Estado em questões de criminalidade e segurança pública. Em 2010 foi ainda pior à medida que Serra alardeava sobre temas como aborto, drogas, maioridade penal, combate a homofobia de modo totalmente contrário às convicções civilizatórias na origem do partido. A polêmica do kit gay surgiu contra Fernando Haddad já nas eleições para a prefeitura paulista em 2012. Mesmo alguém como FHC, em razão da defesa da legalização das drogas e outras pautas liberais, foi omitido pelo partido. A cada passo que o sucesso eleitoral do PT encurralava os tucanos, as práticas se tornavam mais deletérias. O resto desta história nós sabemos. Um ano antes da eleição de Bolsonaro, Haddad afirmou: “Quem abriu a caixa de Pandora de onde saiu o presidenciável Jair Bolsonaro foi o tucanato. Embora essa agenda pudesse vir à tona em algum momento, foram os tucanos que a legitimaram. Um equívoco histórico.”

Uma vez Bolsonaro eleito e a inadequação do mesmo ao cargo tornando-se cada vez mais patente (como registra a queda de popularidade), Dória se esforça em parecer um contraponto aos excesso do presidente. “Nem de esquerda, nem direita, mas de centro”, assim ele definiu o PSDB na mesma linha em que estreitou relações com a China e prometeu não efetuar cortes na cultura. Para os militares (principal categoria em disputa com Bolsonaro), nomeou o general João Camilo para a secretaria de Segurança Pública e anunciou a revitalização dar armas e blindados da Polícia. Ainda nos últimos dias, Dória encontrou em diferentes ocasiões Dias Toffoli, Alexandre Moraes, Ricardo Lewandowski e Davi Alcolumbre, além de Rodrigo Maia com quem almoça frequentemente. O presidente da Câmara não é somente amigo do governador, mas peça importante em seu tabuleiro até a presidência. No atual cenário em que os parlamentares (em sua maioria do centrão) se organizam ao redor de Maia e reforçam o peso do Congresso na condução da política, a tendência é que os atuais deputados adquiram relevância nas próximas eleições. Dória provavelmente será apoiado pelo bloco do centrão, assim como Alckmin nas últimas eleições, mas em um contexto em que o presidencialismo de coalizão voltou a parecer uma ideia razoável perto do sectarismo olavista do presidente.

Nas mãos de Dória, o PSBD seguirá o que foi nos últimos anos: um partido que toma decisões de acordo com o custo de oportunidade de cada situação. Já não há ideário modernizante nem muito menos social-democrata que oriente o partido, senão uma classe média ávida pelo desmonte do restante das políticas sociais, e um reprovação mais ou menos indiferente ao reacionarismo dos outros grupos mais à direita. Assim como valia qualquer coisa para tirar o PT do poder (e valeu o Bolsodória como passaporte para o governo de São Paulo), também valerá para que Dória se torne presidente. A novidade é que o PSDB do dorismo tem chances reais de retornar ao centro do poder, sobretudo porque esquerda continua indecisa e o atual presidente nem de longe goza da mesma vitalidade eleitoral do PT. Mais do que nunca, o que não temos é um verdadeiro partido de centro-direita que modere a direita propriamente dita.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.