O impacto da pandemia na eficiência política do bolsonarismo foi ambígua. É certo que a reconsideração do papel do Estado ricocheteou o liberalismo ululante do governo. Não é menos certo que a pandemia estancou a oposição, a única empenhada em debelar o vírus, desde então tolhida de saír às ruas para entoar o seu grito de dor ou revolta.

Ao contrário da extrema-direita, a esquerda é menos ágil em esparramar as ondas de insatisfação pela internet. Em suma, depende essencialmente dos espaços associativos, desde os sindicatos até as universidades, além da própria rua. Ser de esquerda é, nesse sentido, uma relação social, e não à toa que o distanciamento social sedou o ímpeto contestativo desses movimentos.

(Foto de Giorgia Prates)

No último sábado, a oposição voltou às ruas, apoiada nas pesquisas científicas que mostram que a combinação entre espaços abertos e máscaras seguras (de preferência PFF2) fornecerem uma segurança adequada, embora não sem riscos. As manifestações, com efeito, não devem ser lidas senão como um exercício coletivo do sofrimento e do desejo, ao mesmo tempo. Ato de entrega, especialmente dos mais jovens, que se arriscaram para dizer que o presidente é tão ou mais perigoso que o vírus, e que os dois juntos são quase imbatíveis, como provam os quase 500 mil mortos.

Sair às ruas, portanto, não atentou contra a coerência entre a narrativa e a prática da oposição, mas a tornou efetiva. Uma coisa é fazê-lo porque simplesmente não se importa com o morticínio, e outra porque não há outra saída de salvar quem ainda pode sê-lo. Assim como a CPI obrigou o Executivo a recuar no boicote à vacinação, as manifestação almejam o mesmo efeito contra o negacionismo e a apologia de remédios sem eficácia.

(Foto de Matheus Veloso)

De agora em diante, espera-se que as ruas, enfim, se tornem o palco em que a ação contra Bolsonaro sirva para intermediar os pactos entre os grupos progressistas, como lulistas e ciristas. A oposição deve ter em mente que a recomposição integral da sua identidade política, ideológica e cultural será fundamental não apenas para a vitória contra Bolsonaro, mas para alcançá-la através de uma plataforma política conectada ao futuro (tributação progressiva, New Deal Verde, renda básica universal).

Sabe-se que uma disputa eleitoral pressupõe o pensamento tático voltado a conquista do poder, o que não raro desencoraja problematizações sobre o programa dos candidatos, em especial às vésperas do pleito. Não por outra razão, daqui até lá, será importante catalizar certas ideias, tal como fizeram as forças progressistas americanas em torno da eleição de Biden, produzindo uma energia a ser processada, incorporada e metabolizada institucionalmente. Mais do que recusar, por princípio, a formação de uma coligação multipartidária em torno da candidatura de Lula, trata-se de disputar espaço dentro dessa mesma coalizão com pautas que mirem outro futuro.

Para além do imobilismo, e o sentimento de inutilidade que reinara nos últimos meses, a rua nos provou capazes de interromper o fluxo inexorável dos acontecimentos. Cada um dos passos da multidão estremeceu e desencadeou o movimento das coisas. Não é o povo que produz a mobilização, mas a mobilização que produz seu povo. É o que ainda nos faltava.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.