Entroncamentos e bifurcações da esquerda

Para ler o texto anterior em que discuti a importância da coalizão de centro-esquerda, clique aqui.

Ao menos à primeira vista, o PT ainda não assimilou a derrota. Em recente nota da direção do partido, mais uma vez repisam a tese de que “só não venceu a eleição pelo uso criminoso de notícias falsas pela campanha de Bolsonaro”.

Para além do narcisismo vitimizante, há uma parcela do partido realmente disposta ao movimento de renovação do partido: os governadores.

Diferente dos parlamentares que se elegem com menos votos, os governadores precisam construir maioria. Esta defasagem ficou evidente na votação da reforma da Previdência: enquanto os parlamentares alardeavam contrários a reforma, os governadores assinaram uma carta em defesa da inclusão dos Estados.

O governador baiano Rui Costa, em recente entrevista para a Veja, expôs desejos que apontam para esta renovação necessária do PT, dentre os quais estão: a ampliação das alianças; o repúdio aos abusos anti-democráticos da Venezuela; a rediscussão dos mecanismos internos do partido; a compreensão do novo papel do Estado na economia; a auto-crítica sobre a relação desgastada com evangélicos e militares.

Não tardou para que a Executiva nacional, encabeçada por Gleisi Hoffmann, lançasse uma nota em desagravo Rui Costa. Olhando assim, parece mesmo que a cúpula do partido acredita que Bolsonaro vai se desgastar até 2022 e assim franquear a vitória do candidato petista. Não por outro motivo, não seria necessária fazer lá grandes mudanças, bastando sobreviver minimamente mobilizado até 2022 — e para isso o Lula Livre é eficaz.

Por outro lado, outras frações progressistas estão ensaiando movimentos interessantes, tanto em termos de articulação das esquerdas, quanto de aproximação a atores do Centrão dispostos a enfrentarem algumas das pautas regressivas do governo.

Ciro Gomes, porta-voz do PDT, conduziu a criação do “Diretos Já”, movimento que reúne partidos que vão desde a esquerda do PSBD até o PC do B. O PSB redigiu documento em que condenou a violação aos direitos humanos na Venezuela e anunciou a saída do Foro de São Paulo em nome do fortalecimento da CSL (Coordenação Socialista Latino-americana). Já Flávio Dino, principal nome do PC do B, está mobilizando lideranças pela formação de uma “frente de centro-esquerda” nas próximas eleições, segundo a notícia de Mônica Bérgamo.

Por mais férteis que sejam, é difícil imaginar o sucesso dessas empreitadas sem o apoio da base social petista. Para se ter uma ideia, mesmo com o anti-petismo e a Lava Jato, o PT foi quem mais elegeu deputados e governadores. Portanto, colocando em termos práticos para 2020: sem o apoio petista, fica difícil a vitória da esquerda em cidades como Porto Alegre (Manuela D’ávila — PC do B), São Paulo (Márcio França — PSB) e Fortaleza (Roberto Cláudio — PDT).

Atualmente, o único partido que está alinhado ao PT é o PSOL. Além de não comparecerem ao “Direitos Já”, ambos boicotaram a posse de Bolsonaro; declararam apoio a Maduro; formaram chapa para a presidência da Câmara; votaram em bloco contra a reforma da Previdência. É provável (e assim espero!) que o PT apoie candidaturas fortes do PSOL como Marcelo Freixo (RJ), Edmilson Rodrigues (PA) e Elson Pereira (SC), o que sinaliza uma possibilidade real da esquerda vencer nessas importantes capitais.

Desde já, até ano que vem, e assim sucessivamente… é imprescindível fazer o que nem mesmo o perigo eminente conseguiu fazer: soldar o vínculo entre as esquerdas. Caso contrário, será o Centrão que, cada vez mais, se afirmará como única força de oposição ao governo Bolsonaro. O desafio está lançado.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.