Logo após as “vitórias” da última semana, os atos pelo impeachment perderam o fôlego no final de semana. Deve ter sido coincidência, efeito do #fiqueemcasa e não de outra coisa, mas as prisões de Sarah Winter, Fabrício Queiroz e a queda de Abraham Weintraub disseram justamente que queríamos ouvir: “isso vai passar”; “não é mais questão de ‘se’, mas ‘quando’”. O perigo, ao menos por ora, é que as prisões transfiram nosso facho e atenção aos tribunais.

Vai passar (2019) de Marcos Chaves.

A caneta dos magistrados é atraente e tão logo desperta uma confiança imprudente no direito. Mais do que em nossas próprias forças, somos levados a crer no voluntarismo salvacionista dos juízes — em especial dos ministros do STF — tornando-os não peças importantes, mas protagonistas da luta contra a barbárie. Qualquer pessoa minimamente atenta aos descaminhos da operação Lava Jato sabe onde essa história vai parar — e não é demais lembrar que foi Sérgio Moro quem mais subiu de popularidade logo após a prisão de Queiroz, segundo dados da consultoria Quaest.

Desde a saída do ex-ministro da Justiça, as decisões judiciais e as operações policiais se tornaram o centro da política nacional. Para Bolsonaro, isso era eficaz, afinal, a pandemia perdia espaço no noticiário. Agora, se a prisão de Queiroz inverteu o jogo, resta ainda que expurguemos a pulsão pelo judiciário como baluarte da retomada civilizatória. O antropólogo Piero Leirner, em entrevista recente para a BBC, bem notou que “o STF se tornou a força moral de defesa da ‘civilização contra a barbárie’. Todos os que são antigoverno apostam suas fichas no ‘padrão lava jatista’, que voltou a ser acionado com a saída de Moro. A PF age a favor, age contra, e o que sobra?”.

A terceirização dos esforços ao Judiciário está presente, sobretudo, na panacéia da cassação da chapa Bolsonaro-Mourão pelo TSE — ideia que ganhou força pelo andamento do inquérito das Fake News. Se já não bastasse o absurdo de imaginar sete ministros do TSE suspendendo uma eleição com 116 milhões de votos, suspeito que esse apelo aos togados nasce da desconfiança quanto às ruas, o lugar onde precisaremos estar para viabilizar o impeachment de Bolsonaro pelo voto de pelo menos 342 deputados.

Ninguém duvida do papel da manipulação direta e das fake news, mas essa é uma explicação muito conveniente para quem não está disposto a admitir a virada histórica que sofremos. Em artigo publicado na Folha dias atrás, a presidente do PT, Gleisi Hoffman, bate mais uma vez na mesma tecla: “Foi por meio da brutal prisão e cassação da candidatura do ex-presidente Lula e da indústria de mentiras contra Fernando Haddad, incentivadas ou toleradas por setores com alta responsabilidade sobre o processo democrático, que Bolsonaro chegou à Presidência.”

Tudo se passa como se o fascismo viesse de fora, quase por acidente, mas somos nós que não estamos à altura de pensá-lo como nascido no seio mesmo da sociedade brasileira — a ponto do bolsonarismo ter vida própria a despeito do próprio Bolsonaro.

Nada é mais inútil do que imaginar que poderemos expiá-lo por uma decisão judicial que restaure uma normalidade perdida… ou mesmo através do mero impeachment. Se ainda insisto nesse ultimo, não é por admiti-lo como um fim em si mesmo, mas porque há de ser o meio de mobilização e reconstrução dos vínculos políticos da esquerda.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.