Leite condensado e o futuro do Estado

Dias atrás o portal Metrópoles publicou uma reportagem sobre os gastos do governo Bolsonaro com itens como leite condensado, chiclete e vinho em 2020. Muita gente se apressou em compartilhar a notícia, seja parlamentares do PSOL, seja do Partido Novo. O leite condensado parecia prestes a se tornar o Fiat Elba de Jair Bolsonaro ou pelo menos o novo Queiroz.

Um olhar mais atento e desconfiado tão logo notaria que os gastos se referiam aos diversos órgãos e ministérios do governo federal, e por isso os valores impressionavam o cidadão comum embora em termos de Orçamento da União não fosse grande coisa. Tampouco a reportagem comparava os gastos recentes aos dos governos anteriores corrigidos pela inflação dos alimentos no período. Não fazia distinção entre os valores empenhados e os que foram realmente executados.

A querela desobrigou Bolsonaro a abordar temas que causaram sua recente queda de popularidade como o fim do auxílio, a lentidão da vacinação e o colapso em Manaus, enfim o liberando para se defender da acusação de ladrão de merendas em lugar de genocida. Não demoraria e uma matéria do UOL mostrou que os gastos do governo federal com alimentação caíram em 2020 em relação ao ano anterior. O presidente aproveitou e fez lives com latas de leite condensado sobre a mesa, atacou a imprensa e espalhou memes com os gastos de Lula e Temer com itens como “cachaça” e “comida de avião”.

Embalagens de Piraquê (1960) de Lygia Pape.

Pode-se dizer que a denúncia ao menos serviu para agitar as redes e criar um fato desfavorável ao presidente. Que isso tenha ocorrido via armas semelhantes a que Bolsonaro comumente lança mão — uma reportagem retórica e descontextualizada — arrisca a pôr em xeque o monopólio da esquerda sobre o discurso contra a mentira. O fato dos oponentes usarem determinadas estratégias não nos autoriza a usá-las, pelo contrário, pressiona que nos tornemos ainda mais rigorosos para recusar a tentação em nome da coerência permanente entre discurso e prática.

Há de se notar que não só a esquerda vicejou com a reportagem sobre o leite condensado, mas também os integrantes de um partido como o Novo, antro de anti-estatismo radical tal como catequizado pelos thinks tanks liberais. Tamanha convergência que uniu desde o Partido Novo, Ciro Gomes até o PSOL não deve ser tomada como mero casuísmo, mas como alerta ao estado de ânimo da esquerda. Ao mesmo tempo que as denúncias de corrupção são tomadas como a principal forma da luta política, o lugar secundário do combate às desigualdades explica o vigor reduzido para a luta pela extensão do auxílio emergencial por exemplo

Embalagens de Piraquê (1960) de Lygia Pape.

Se é mesmo preciso dobrar a atenção, é também porque o discurso contra a corrupção e os gastos perdulários foi instrumentalizado pelas demandas de esvaziamento das funções públicas (com exceção da polícia). Diante do imperativo de combater a corrupção, os arautos do mercado venderam a falsa ideia de que a única solução estaria no corte draconiano de gastos. Em lugar de criar mecanismos legais mais apropriados para apurar e punir os atos fraudulentos, tratou-se de jogar a água fora com a criança junto para que o fim da corrupção justificasse a criminalização do Estado e dos servidores públicos.

Os discursos contra a corrupção, por mais eloquentes que sejam, convivem nessa simultaneidade contraditória com o outro lado da moeda que mina uma das principais características política da esquerda, a saber, a primazia de enfrentar as desigualdades através de políticas públicas. A saída da pandemia, por sua vez, será marcada por uma disputa entre essas duas narrativas: uma que prioriza os maus tratos da coisa pública pelos agentes que superfaturaram em compras emergenciais; e uma outra que destaca a importância do Estado para a garantia da saúde pública e da economia ao longo dos últimos meses. Não se trata, é claro, de fazer vista grossa para a imoralidade pública dos casos de corrupção, mas de apontar que a saída está na institucionalização do combate a corrupção em um avançado sistema de prevenção e fiscalização. Ao mesmo tempo que o Estado não é interpretado como um problema a ser superado, e sim como um dos caminhos da recuperação do país.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

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