Marília Arraes x João Campos: a disputa fratricida que ameaça o futuro da esquerda

Dois partidos de esquerda disputando o segundo turno é um oásis em meio ao Brasil bolsonarista onde as demais decisões municipais se dão entre dois candidatos de direita ou, no melhor dos casos, um de cada espectro. Numa eleição em que os partidos de direita ampliaram a base de prefeitos em todo o país (inclusive em Pernambuco), Recife despontou como a única capital em que, independente do resultado no domingo, um partido de esquerda estará no poder — seja através da petista Marília Arraes, seja com o pessebista João Campos.

É difícil, no entanto, que o sentimento de alívio perdure no momento em que olhamos a disputa mais de perto, afinal, PT e PSB estão protagonizando uma disputa pobre em conteúdo e cheia de golpes baixos e fratricidas que representam, ao fim e ao cabo, a antítese da aliança necessária entre as esquerdas.

HC (2018) de Rodrigo Bivar.

Aliados históricos, o distanciamento entre os dois partidos remonta ao projeto de Eduardo Campos rumo à presidência em 2014. Até ali, em todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, o PSB integrou a chapa petista — com exceção de 2002 em que os pessebistas apostaram na candidatura de Anthony Garotinho pela própria legenda. Foi nessa eleição em que Lula finalmente chegou à presidência e então nomearia Eduardo Campos como ministro da Ciência em 2004, ano em que começaria a dobradinha entre os dois partidos em Pernambuco — reunidos na chamada Frente Popular — onde o PT emplacava o prefeito (João Paulo em 2004 e João da Costa em 2008) e o governador do PSB (Eduardo Campos em 2006* e 2010).

A parceria rachou quando o sucesso de Eduardo como governador — reeleito em 2010 com impressionantes 83% dos votos válidos — pavimentou o seu desejo de disputar a presidência. Já na eleição para a prefeitura do Recife em 2012, o PSB lançou o até então desconhecido Geraldo Júlio numa chapa sem a participação dos petistas, desfazendo assim a antiga Frente Popular, em um primeiro gesto do partido para se distanciar do PT e despontar como uma terceira via — a exemplo do momento de sua fundação em 1947 em que o PSB se pretendia uma alternativa de esquerda ao PTB de Getúlio Vargas.

No fatídico 2014, o PSB introduziu o também desconhecido Paulo Câmara para o lugar de Eduardo Campos no governo de Pernambuco, enquanto o ex-governador se lançou a campanha presidencial — mesmo momento em que iniciou a transferência do comando do partido no estado para o seu filho, João Campos, ao conferi-lo a presidência da juventude do PSB-PE. Antes, quem estava na fila para assumir o posto era a prima de Eduardo Campos e vereadora do partido, Marília Arraes, que então se admitiu traída pela mão de ferro do primo e pela posição do PSB em apoiar Aércio Neves no segundo turno da eleição presidencial. Marília então trocou o PSB pelo PT, por onde seria reeleita vereadora em 2016 como a mais votada do partido, enquanto Geraldo Júlio seria reeleito na prefeitura contra o petista e ex-prefeito João Paulo.

Brancacci (2017) de Rodrigo Bivar.

Com as velhas figuras petistas perdendo o fôlego, Marília se tornaria uma força insurgente no interior do partido a ponto de emplacar a sua candidatura ao governo do Estado em 2018. A ambição da vereadora só seria barrada pela direção nacional do PT, encarnada na figura do ex-presidente Lula, responsável pela negociação de retirada da chapa petista ao governo de Pernambuco em troca da neutralidade do PSB na disputa presidencial — de outro modo, de outro modo, Ciro Gomes ganharia o apoio dos pessebistas contra Fernando Haddad.

Já em 2020, por outro lado, o PSB e o PDT firmaram aliança propriamente dita para a disputa das eleições municipais em diversos cantos do país. A pretensão de ambos partidos ao se consolidarem em várias cidades ao redor do Brasil, com efeito, ainda é a mesma daquela de Eduardo Campos: forjar uma terceira via, apartada do PT, a ser encabeçada provavelmente por Ciro em 2022. Foi assim que João Campos foi lançado a prefeitura ao lado da vice do PDT, Isabella de Roldão, enquanto Marília Arraes enfim obteve carta-branca para a disputar a eleição majoritária, onde teria a árdua missão de derrotar localmente a aliança PSB-PDT que então ameaça nacionalmente a hegemonia petista na esquerda

Desde então, Recife se tornou o epicentro das disputas entre as forças de esquerda que, talvez, sejam o ensaio do que teremos em 2022. Ao contrário disso, gosto de pensar que o segundo turno em Recife tinha tudo para ser mais bonito: seja pela eleição de Marília em que, assim como João Paulo se sagrou como o primeiro operário a governar a cidade, a petista representaria a primeira mulher; seja pela vitória de João Campos, alguém que não só começou a dar os primeiros passo como deputado federal, como tem tentado redimir a postura errática do PSB ao enfrentar o bolsonarismo no Congresso, além de liderar a importante Frente da Renda Básica. Mas a verdade é que Marília e João derrotaram os oponentes de direita (Mendonça Filho e Delegada Patrícia) que flertaram com Bolsonaro durante a campanha, e então iniciaram uma disputa no segundo turno cuja beligerância autodestrutiva — um misto de rixas familiares e partidárias — pode resultar em mágoas que dificilmente serão cicatrizadas até 2022.

Só nos últimos dias: Flávio Dino e Ciro Gomes foram crucificados por parte da esquerda por apoiarem João Campos (muito embora seja natural que fizessem já que seus respectivos partidos integram a chapa); os deputados Túlio Gadelha (PDT) e João Paulo (PC do B) boicotaram os próprios partidos de esquerda para declarar apoio à candidata petista; a campanha de João Campos resolveu apostar em métodos bolsonaristas para deslegitimar e caluniar a adversária desde que as pesquisas sinalizaram a possível derrota do pessebista; e, não menos importante, os debates constrangedores entre Marília e João em que o Recife foi deixado de lado para que as intrigas pessoais maculassem as discussões sobre a queda da arrecadação municipal, os problemas de mobilidade urbana e os preparos a segunda onda da pandemia.

Dupont e Dubond (2017) de Rodrigo Bivar.

Deve-se levar em conta que a briga entre PSB e PT pode custar caro para o futuro da esquerda em Pernambuco. Caso as pesquisas se confirmem e Marília realmente vença, ela precisará do apoio dos 12 vereadores do PSB para ter a maioria de pelo menos 20 vereadores na Câmara Municipal (PT e PSOL juntos tem apenas 5). Se não for assim, na pior das hipóteses, a gestão da petista terá enormes dificuldades para governar e pode abrir espaço para a vitória da direita em 2024, sobretudo porque Mendonça Filho (DEM) e a Delegada Patrícia (Podemos) já obtiveram 42% dos votos no 1° turno, um percentual bem acima do desempenho da direita nas eleições anteriores e que sinaliza a fadiga dos recifenses com o longo ciclo da gestão do PSB.

Já na disputa pelo governo em 2022, o arranjo entre PSB e PT que garantiu a vitória de Paulo Câmara ainda no primeiro turno não deve acontecer novamente — seja porque a candidatura do PSB em Pernambuco será importante para fortalecer Ciro Gomes na disputa presidencial; seja porque Marília Arraes, ganhando ou perdendo, estará mais forte no partido e deve levar a melhor contra o grupo do senador Humberto Costa, contrário a segregação de PT e PSB no estado. Só não devemos perder de vista que o PT não tem muita força no interior do Estado (governa apenas 5 prefeituras) e o PSB ainda não tem um nome competitivo, já que o candidato natural, Geraldo Júlio, está tão fragilizado que João Campos sequer o utiliza como cabo eleitoral.

Já a direita, por sua vez, talvez venha ainda mais forte uma vez que, enquanto PT e PSB acabaram de perder prefeituras no estado (em especial o partido de João Campos que reduziu em 12), partidos como MDB, DEM, PP e Republicanos governarão mais municípios a partir do ano que vem. Além de terem mantido o domínio das duas maiores cidades do interior, Caruaru e principalmente Petrolina, cidade da qual o prefeito reeleito com quase 80% dos votos, Miguel Coelho (MDB), é um dos cotados para representar o campo conservador na disputa pelo governo em 2022.

No plano nacional, o desafio da esquerda será a conciliação entre o PT de Lula e o PDT de Ciro em nome da construção da esperada frente ampla contra Jair Bolsonaro e a frente de centro-direita (Dória/Huck/Moro). Já no plano local, o vínculo entre PT e PSB precisará encontrar o seu termo para além das picuinhas familiares, afinal, disso depende a manutenção de Pernambuco como um bastidão da esquerda — a terra de Miguel Arraes, Lula e Eduardo Campos.

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