Mercado global em transe (II): a pressão externa sobre os ativos brasileiros

Para se ter uma ideia de como a economia brasileira reagiu aos choques externos, basta tomar como referência as duas principais medidas do governo Bolsonaro até então — a reforma da Previdência e a liberação do FGTS.

Após a escalada da tensão entre Estados Unidos e a China, o câmbio, a bolsa de valores e o risco-país rapidamente retornaram aos níveis anteriores à aprovação da reforma da Previdência. Em paralelo, a retração da Argentina, ao reduzir a demanda sobre indústria brasileira, certamente inibirá os efeitos expansionistas da liberação do FGTS. Ao final, um jogo de soma zero em que as excrescências externas neutralizam as novidades internas.

Próximo das eleições americanas, é improvável que Trump recue diante da China, o que tende a forçar ainda mais o preço dos ativos brasileiros. Já na China, o modelo de crescimento export-lead, baseado em exportações e o investimento autônomo do Estado, está cedendo lugar ao consumo interno e o investimento induzido. Com efeito, essa conversão automaticamente diminui o preço das commodities e prejudica países emergentes, como o Brasil, que tem a China como o principal parceiro comercial.

Olhando assim, não é difícil imaginar que está bloqueado o caminho do crescimento via aumento das exportações. Sendo mais exato, desde a crise de 2008, a concorrência internacional por mercados compradores foi acirrada, pois muitos países enxergaram na demanda externa uma forma de compensar a queda do consumo interno e a capacidade ociosa das indústrias. Se a coisa só degringolou recentemente, é porque o crescimento chinês sustentou a corda até então, mas cujo rompimento nem mesmo a desvalorização do real (o que tenderia a beneficiar as exportações) pode compensar.

Diante do arrefecimento do comércio global, é a expansão da demanda doméstica, tanto privada quanto pública, que assume o dinamismo que outrora dividiu com as exportações. Portanto, discordo quando o ministro Paulo Guedes defende a abertura comercial como meio de expôr as empresas brasileiras a competição internacional, o que teoricamente as pressionaria a ganharem competitividade e se afirmarem autonomamente. Em lugar disso, defendo que mesmo a expansão das exportações deve ser induzida pelos ganhos de competitividade (em termos de escala e produtividade) gerados pela ampliação, em primeiro lugar, do mercado associado ao consumo interno.

Nesse sentido, dentre as várias coisas que devem ser feitas, uma delas é imediata: o Banco Central precisa se manter firme diante das intempéries externas. Afinal, não é hora de adotar uma postura conservadora e voltar a subir a taxa de juros para frear a desvalorização do real. Uma vez que os países centrais estão apostando no afrouxamento monetário, não há perigo, ao menos no momento, de que o país sofra com a súbita saída de capitais. No mais, outras duas características da economia brasileira são tranquilizadoras: 1) praticamente não temos dívidas em dólar como a Argentina; 2) o repasse da depreciação do real para a inflação está bastante amortecido (o real se desvalorizou 25% desde o começo do ano e a inflação não galopou), o que diminui a urgência de agir sobre o câmbio. Embora não seja suficiente, a taxa de juros reduzida é importante para avalizar os gastos públicos sem encarecer a rolagem da dívida, além de estimular os empréstimos e investimentos privados que, de outro, descansariam em aplicações financeiras. Nada disso faz milagre, mas não deixa de ser o mínimo necessário.

— Para ler a primeira parte sobre as razões da instabilidade mundial, clique aqui.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.