Não é sem razão que Bolsonaro odeia o carnaval

Provavelmente todos lembram que o carnaval engendrou a primeira revolta popular contra o governo de Jair Bolsonaro. O presidente só vestia a faixa há dois meses e assistiu dezenas de vídeos em que blocos inteiros lhe hostilizavam, o seu boneco gigante alvejado por corpos de cerveja em Olinda, a outra história do Brasil narrada pelo desfile da campeã Mangueira. A reação presidencial foi imediata: postou o vídeo do golden shower, afinal, “é isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”.

O tiro, no entanto, saiu pela culatra e Bolsonaro se tornou alvo de críticas de todos os lados, inclusive de seus apoiadores — seja porque o presidente deveria ter mais o que fazer, seja porque exortações despudoradas sempre fizeram parte da substância carnavalesca.

Núcleo de Expansão (1965) de Iberê Camargo

De todo modo, há de se levar em conta que as ações do presidente não são desprovidas de finalidade como parecem (o que é golden shower?, ele perguntaria logo em seguida). Vladimir Safatle tem dito que quando Bolsonaro fala em comunismo, não está delirando sobre o passado, mas antecipando o que pode surgir no futuro. Aqui, minha aposta é semelhante: criticar o carnaval tem menos a ver com o recato homofóbico do presidente do que com o medo de certa iluminação profana, para a qual o carnaval pode servir de propedêutica.

É certo que o antagonismo constitutivo das “classes” que estruturava as subjetivações políticas entrou em colapso. Em seu lugar, no entanto, permanece uma energia social transbordante à busca de engajamento, a mesma que desde a Primavera Árabe incendeia as ruas do mundo inteiro — olhem o que está acontecendo no Chile e na França exatamente agora. Enquanto o desenvolvimento tecnológico dispensa e esteriliza a força de trabalho, sobretudo jovem, o capital precisa ainda mais, para sua reprodução, sufocar qualquer performance simbólica que ative a libido coletiva. Daí o crescente número de governos autoritários.

O antropólogo Viveiros de Castro escreveu que “o carnaval atualiza potências do desejo político das massas que apenas o contato real dos corpos é capaz de despertar, potências que, uma vez liberadas, dificilmente retornam à dormência sem deixar marcas no cotidiano”. As marchas na cidade, a relação com a alteridade, as roupas velhas ou emprestadas — às vezes quase nenhuma — o contato vivo entre os corpos capaz de ultrapassar a falência da linguagem. Banda e foliões não se sobrepõem, mas ensaiam e improvisam relações continuamente. O movimento dos corpos inspira novos acordes do músico, e vice-versa, indefinidamente. Num país absurdamente desigual, o carnaval cria uma comunidade — comum e aleatória ao mesmo tempo — que atualiza a partilha do sensível.

Uma genealogia da sensibilidade política que resultou em Junho de 2013 certamente incluiria o ressurgimento do carnaval de rua do Rio de Janeiro na virada dos anos 2000; a novidade carnavalesca em capitais que ficavam desertas durante o feriado como São Paulo e Belo Horizonte; o fim do carnaval na beira-mar de Boa Viagem e a convergência para as ruas históricas do centro do Recife e Olinda; o mosh do Baiana System tomando o lugar dos cordões do carnaval de Salvador; a resistência dos maracatus de Nazaré Mata (PE) contra o horário-limite da prefeitura que proibia as sambadas de amanhecerem o dia. Numa resposta a mercantilização dos rituais carnavalescos (bandas do star system, abordagens machistas, abadás e cercadinhos, colas de plástico de havaiano), o que se viu foram as ruas tomadas de assalto por um desrecalque generalizado que acarretou novos agenciamentos coletivos.

Quem frequentava esses carnavais, sabia que manifestações de massa não dependem, para acontecer, de organizações de massa. As rodas do Baiana System ou Nação Zumbi não terminam em violência. Os blocos se cruzam nas ruas estreitas de Olinda sem parar de tocar (o que tem a ver com fluxo, e não disciplina). ‘Ó o pesado’ atravessa a multidão sem machucar ninguém. Tudo se passa “como se Boulos tivesse sido eleito presidente e Sônia Guajajara vice — e seu mandato estivesse dando certo”, como escreveu Caetano Veloso.

As manifestações políticas de outrora — como Diretas Já ou Caras Pintadas — ainda eram extremamente coreografadas e pirotécnicas, mais voltadas para o impacto visual do que sensível. Junho de 2013, ao contrário, auto-convocado e heterodoxo, sem carros de som ou líderes enquanto confinava os parlamentares no Congresso, foi uma verdadeira explosão anti-sistêmica que traduziu politicamente uma verdade carnavalesca: que a massa é capaz de agir em comum sem ser comandada por ninguém — e agir com precisão, vide a força dos blocos paulistas que enfrentaram a truculência policial do governador João Dória no último carnaval.

Posto ao lado das manifestações, o carnaval não tem nada do desfile ingênuo da “alegria do povo brasileiro”. Assim como o samba nasceu das rodas de capoeira, os passistas de frevo eram originalmente capoeiristas que acompanhavam os blocos de carnaval realizando seus gestos (metade golpe, metade acrobacia). Se hoje a dança propriamente dita foi abolida pela falta de espaço, as ruas tomadas pelas multidões ainda podem ensinar algo de prático às lutas contra o poder. Para falar como Siba: o carnaval é “uma constelação em movimento que parece a imagem do caos que gerou o mundo, mas que se move com a graça e a beleza de um futuro mundo melhor possível, pra quem souber ver”.

O que Bolsonaro teme é a relação explosiva — entre a libido social e o real macropolítico do país — quando imaginada em consonância com a forma mesma dos carnavais. Para além das fantasias que protestam contra a terra plana e o kit gay, há uma agitação mais profunda que diz respeito a capacidade de imaginar outros possíveis por intermédio das formas de consciência e afetos próprios ao carnaval. O que veremos nos próximos dias é uma gente que dança tudo, inclusive o hino nacional (basta colocar uma batida funk), porque sabe quem são os verdadeiros inimigos da pátria.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.