O PSL é uma pedra no caminho da revolução conservadora

A relação entre Jair Bolsonaro e o PSL é uma bomba-relógio, e não é de agora. Afinal, não estamos falando de um candidato qualquer, mas de alguém que despontou em revoltas anti-partidárias, embora não necessariamente de direita (Junho de 2013), e ganhou força ao longo das passeatas verde-amarelas em que a camisa da seleção não tem cor de partido nenhum. Os eleitores de Bolsonaro não são militantes tradicionais, mas policiais, caminhoneiros e evangélicos que, através das redes sociais, engendraram uma capilaridade social que prescindia da máquina partidária ou do horário televisivo reservado aos partidos.

Convenção nacional do PSL realizada em julho.

Isso tudo, porém, não muda o fato de que Bolsonaro faz parte (e não é de hoje) do sistema político cujo requisito básico é o partido. E, mais do que isso, sistema em que criar um partido do nada não é tarefa simples (basta lembrar do périplo de Marina Silva para legalizar a Rede ou do MBL que até agora não conseguiu).

Sabendo que não deveria desperdiçar a oportunidade, Bolsonaro se filiou ao PSL para a disputa presidencial. O acordo, firmado junto ao presidente do partido Luciano Bivar, incluía tal liberdade para ele e seus filhos que os outros partidos interessados (Patriota e Prona) não lhe ofereceram.

A carta branca, de fato, foi dada, mas não completamente. O PSL do Rio de Janeiro ficou nas mãos de Flávio Bolsonaro, enquanto Eduardo avassalou o diretório paulista. Já os dois principais cargos nacionais, por sua vez, ficaram com políticos antigos na sigla. Luciano Bivar (PE) permaneceu como presidente, a cargo do controle dos recursos e da elaboração do estatuto do partido. Já a liderança da bancada no Congresso, quem orienta as votações e decide quem integra as comissões temáticas, ficou nas mãos do Delegado Waldir (GO), que também já estava no partido antes.

À vista disso, o cálculo de Bolsonaro era pragmático: uma vez presidente, teria força para dominar o partido. Até porque, quem quer o partido elegesse, seria difícil não dar crédito a ele.

Dito e feito: Bolsonaro foi eleito e, consigo, fez do PSL a segunda maior bancada da Câmara (52 deputados).

À medida que Bolsonaro aplainou o terreno e ladeou a passagem, todo mundo montou sua barraca, e foi assim que o PSL se tornou um “acampamento do baixo clero” (a expressão é de Celso Rocha Barros). Ali, reuniam-se agendas heterogêneas, e nem sempre convergentes, como liberdade para empreender, diminuição do Estado, corporativismo policial, punitivismo, mandonismo local, redes de clientela.

Em resumo, entrou tudo que é gente, e para muitos Bolsonaro era um ótimo cabo eleitoral, mas não um mito (ou qualquer coisa de inquestionável). Não à toa, uma vez eleitos e com poder nas mãos, já não lhes faltariam culhões para contrariar o presidente ou, logo de cara, viajar a China sem pedir permissão, episódio que rendeu a antipatia de Olavo de Carvalho, guru do presidente, contra boa parte dos membros do PSL.

Já nessa altura, desenhou-se uma divisão no partido entre, de um lado, os parlamentares bolsonaristas/olavistas (Carla Zambelli, Bia Kicis, Orléans e Bragança, além dos filhos). E, do outro lado, os demais eleitos que prescreviam limites a soberania de Bolsonaro no interior do partido (Major Olímpio, Felipe Francischini, Joice Hasselman). A ilustração perfeita está na batalha fratricida pela candidatura a prefeitura de São Paulo: os olavistas acham que Orleans e Bragança (ou Datena) deve ser o candidato, enquanto Joice Hasselman é a preferida dos pesselistas.

O presidente Luciano Bivar, ciente do capital político que a faixa presidencial avalizava, colocava-se acima das disputas, disposto a punir quem subisse demais o tom contra Bolsonaro. Assim ocorreu com Alexandre Frota (SP), expulso do partido, e não tardaria a acontecer com Selma Arruda (MT), a “Moro de saias”, que meteu o pé antes. Em outro caso parecido, quando os filhos de Bolsonaro convenceram o pai a demitir Gustavo Bebianno (RJ), Bivar não se meteu a salvar o então membro do partido e potencial candidato a prefeito do Rio.

A reciprocidade, por outro lado, nunca praticada por Bolsonaro, despreocupado em retribuir a “gentileza” do partido em patrocina-lo. O motivo é simples: o PSL não era um partido que ele pudesse ser chamado “meu”. Por isso, ele não fez esforços em atrair deputados para o partido (o partido tem apenas um mais que no início do ano). Além disso, deu três ministérios ao DEM (Casa Civil, Saúde e Agricultura) e somente um ao PSL (o nanico do Turismo). E não fez esforço nenhum pela recente campanha nacional de filiação ao partido. A melhor coisa que fez ao partido, durante a recente trâmitação do projeto das novas regras eleitorais, foi não vetar o uso do fundo partidário para pagar advogados — instrumento útil ao PSL para responder o esquema de candidatas laranjas, que pode enrolar até o presidente.

Para alguém que interviu no Ministério Público, Receita Federal, Coaf, Polícia Federal, e até no Itamaraty, é lógico que, em algum momento, faria o mesmo no PSL. Foi então que Bolsonaro pressionou Bivar para que peitasse os deputados do partido, então dispostos a alavancarem a CPI da Lava Toga, o que era capaz de irritar o Judiciário e endurecer as investigações do caso Queiroz. Ora, Bivar bem que tentou, mas não deu jeito: dar vazão a CPI era o revide dos deputados contra a pouca monta que Bolsonaro fazia deles.

Para piorar, na mídia, o caso do laranjal do PSL ganhava proporção. Bolsonaro, insatisfeito com o partido, aproveitou a brecha e levou sua relação com o partido ao limite: “Esquece o PSL. O cara [Luciano Bivar] está queimado para caramba lá. Vai queimar o meu filme. Esquece esse cara, esquece o partido”, afirmou em alto e bom som para um dos seus apoiadores.

Erra, no entanto, quem acredita que o presidente está mesmo preocupado se o partido está queimado ou alaranjado, embora sirvam como excelentes desculpas. Na verdade, o ataque de Bolsonaro ao PSL é mais uma rodada da revolução conservadora que ele acredita estar levando a cabo. Era só questão de tempo para que Bolsonaro seguisse o exemplo dos seus congêneres europeus — Viktor Orbán (União Cívica Húngara), Andrzej Duda (Lei e Justiça) e Marine Le Pen (Frente Nacional) — e também quisesse o seu próprio partido.

Em meio ao Conservative Political Action Conference, evento conservador realizado em São Paulo no último final de semana, o professor de filosofia Rafael Nogueira resumiu bem o trajeto que vai do PSL até o partido do futuro:

“O PSL reuniu de improviso a direita desamparada. Foi um arranjo de momento. Naquele momento, era preciso trocar o pneu com o carro andando. Temos que definir agora nossa visão própria. É preciso criar um novo partido conservador.”

Se, em dado momento, Bolsonaro ensaiou a montagem de uma base multi-partidária com PFL e DEM, o verdadeiro horizonte sempre foi outro. Afinal, mais do que um governo, o que está em jogo é um movimento, o que explica porque atributos de um governo tradicional como estabilidade, mediação política e administração pública não servem como medida. Para conservar a feição de insurgência conservadora, é preciso outra coisa: renovar constantemente a luta contra a degradação da moral (tal como nas recentes censuras na cultura) e, não menos importante, contra o sistema político tradicional — o que agora é feito em detrimento do próprio partido, mas sob auspícios, é claro, das aspirações autocráticas do presidente

Agora, a estratégia de Bolsonaro consiste em afirmar que é preciso abandonar o PSL, ao mesmo que encomenda uma auditoria para encontrar desvios nas contas do partido de 2014 até hoje. Fazendo assim, cumpre dupla função. Primeiro, assevera que o partido é disfuncional, logo seria preciso largá-lo para que a revolta prossiga — mensagem que vale mesmo se Bolsonaro não sair do PSL imediatamente). Segundo, pode abrir uma brecha na lei para que os deputados bolsonaritas sigam seus passos sem perder o mandato (e os recursos do fundo eleitoral), o que aumentaria a chance do presidente realmente rumar à outro partido que aceite ser integralmente domesticado.

Em entrevista para O Globo (14/10), a advogada de Bolsonaro, Karina Kufa, admitiu que a formação de um partido do zero está descartada, já que não haveria condições da obtenção imediata do registro. Fora isso, o presidente estaria conversando com cinco partidos. Antes que perguntemos quais partidos seriam, é bom que fique claro que, na primeira querela, esse papo de partido conservador vai voltar a ordem do dia.

Acima de tudo, falar na criação do que ainda não existe é também dizer que a revolução está apenas começando.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.