O realinhamento eleitoral de Bolsonaro: da classe média para as populares

A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada na última sexta (11), revelou a maior aprovação do presidente Jair Bolsonaro desde início do governo. Os dados, com efeito, confirmam a tendência de ganhos de popularidade na classe de renda mais baixa, verificada desde a aprovação do auxílio emegencial, marcando a penetração de Jair Bolsonaro no único estrato em que perdeu para Fernando Haddad no 2º turno da eleição de 2018.

Na comparação com a pesquisa de dezembro de 2019, naquela altura apenas 22% dos entrevistados com renda de até 2 salários mínimos (SM) avaliavam o presidente como ótimo/bom após um ano de governo. Agora, a aprovação chega a 35%, ao mesmo tempo que a avaliação como ruim/péssimo caiu de 43% para 31%.

Movimento contrário se verificou nas frações de renda superiores, impactadas negativamente pelas quedas dos ministros Moro e Mandetta, além do postura do presidente no combate a pandemia. Tanto nos entrevistados com renda entre 5–10 SM quanto naqueles com mais de 10 SM, em ambos a aprovação caiu de 44% para 40%. Já a rejeição, 31% e 28% respectivamente, subiram para 40% e 47%.

À primeira vista, os dados sugerem a hipótese de um realinhamento eleitoral em que os mais pobres tomam o lugar da classe média como base do eleitorado de Jair Bolsonaro.

O cientista político André Singer — em seu clássico Sentidos do Lulismo — identificou o mesmo fenômeno durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula. Ali, o escândalo de corrupção do mensalão minou o apoio do eleitorado tipicamente urbano e escolarizado que elegera Lula em 2002, ao mesmo tempo que as políticas sociais petistas — especialmente de combate a pobreza — cimentaram o apoio das classes populares. “Uma adesão que salvou Lula da morte política a que parecia condenado pela rejeição da classe média”, reconheceu Singer.

Desta vez, o mesmo André Singer, em entrevista recente para O Globo, afirmou o seguinte: “Neste momento, é visível o esforço do governo em encontrar dinheiro pra fazer alguma coisa, o que já é uma novidade, porque esse governo nunca havia se preocupado com as camadas mais pobres. E tem mais um acontecimento importante que é o governo perdendo apoio na classe média.” Disso, Singer concluiu que “não há dúvida de que pode haver um novo realinhamento”.

O realinhamento eleitoral petista foi consequência da conjuntura econômica internacional favorável, relativo ao boom das commodities, que assegurou o espaço fiscal para as políticas de redução da pobreza e ativação do mercado interno. Bolsonaro, por sua vez, também se valeu do contexto mundial de juros reduzidos, além do aumento da tolerância dos investidores e agências de rating quanto aos níveis da dívida pública, para implementar as políticas expansionistas durante a pandemia, incluindo o auxílio emergencial. Foi nesse cenário que o intervencionismo econômico do ministro Rogério Marinho ganhou espaço em detrimento do fiscalismo dogmático de Paulo Guedes.

Por outro lado, é preciso ressaltar diferenças importantes: no caso do lulismo, o cenário internacional conferia uma vantagem positiva, isto é, o superávit fiscal pelo qual o governo custeava diretamente as políticas sociais. Já agora, ao contrário, o contexto externo fornece uma vantagem negativa, traduzida no maior espaço para o endividamento, mas sem força para modificar o Teto de Gastos que comprime os investimentos públicos. A verdade é que o mercado consentiu aos gastos durante a pandemia mas não está disposto a aliviar para a derrubada do Teto de Gastos que coloque em risco a trajetória da dívida, o que põe em xeque a capacidade de Bolsonaro fazer algo parecido ao que fez o PT para se tornar o partido das classes populares. Para além do Bolsa Família, é bom lembrar, as políticas do lulismo incluíam a valorização do salário mínimo, as políticas de crédito, além de programas específicos (Luz para Todos, Reuni, Proinfância, etc) que produziram “uma consciência (…) de que as condições de vida foram estruturalmente transformadas pelo lulismo”, nas palavras de Singer.

Os principais projetos sugeridos pelo ministro Rogério Marinho ao presidente são três: 1) o Renda Brasil (extensão do auxílio emergencial); 2) as obras de infraestrutura do Pró-Brasil; 3) o novo Minha Casa Minha Vida. Se o governo não agir politicamente para reformar o Teto de Gastos de modo a pelo menos excluir os investimentos públicos do limite fiscal — sem abrir mão da anuência de Paulo Guedes que tranquilize o mercado — é provável que restem apenas as manobras para liberar recursos empoçados e reduzir o salário dos servidores públicos. O que deve servir para consolidar o Renda Brasil, e quase nada além disso — como teria dito Paulo Guedes a Bolsonaro em reunião na última segunda (17).

Se é certo que o programa de transferência de renda tem sido a principal alavanca da popularidade do presidente, não é menos certo que a diminuição do valor do benefício e do número de famílias habilitadas a recebê-lo deve a mexer na equação.

Uma das mais famosas teorias do vencedor do prêmio Nobel em Economia, Richard Thaler, é a de que as pessoas são mais sensíveis às perdas inesperadas do que aos ganhos inesperados. Por essa ótica, é bem possível que a frustração da perda exceda a satisfação do ganho em boa parte dos beneficiados e assim arrefeça o apoio a Bolsonaro entre os mais pobres. Como revelou a mesma pesquisa do Datafolha, 53% dos entrevistados usam o dinheiro do auxílio emergencial para comprar alimentos, o que deixa bastante claro que a redução do auxílio será sentida de imediato, sobretudo se não for capaz de preencher o buraco causado pelo desemprego.

Minha hipótese é que deve ocorrer algum realinhamento na base eleitoral de Jair Bolsonaro, muito embora nada comparado ao protagonizado pelo lulismo. Os ganhos de popularidade nas classes mais baixas, ao menos por ora, não parece sustentável. Assim como a classe média não parece disposta a largar o presidente, do mesmo modo fizera com Lula sob efeito do mensalão, como já evidenciou a última pesquisa do Datafolha que mostrou uma melhora na aprovação do presidente nos estratos de renda mais alta que contrariou as quedas das pesquisas anteriores. Isso se explica não apenas porque o presidente moderou a comunicação e escanteou os filhos, mas porque a classe média já não tem um partido orgânico que seja representativo do seu polo social — como era o PSDB na altura do mensalão — de modo que a fraqueza de Bolsonaro rapidamente se traduz no fantasma do retorno da esquerda ao poder. Por isso, é provável que a classe média não se afaste muito de Bolsonaro, ao passo que as classes populares dependem de muito mais que só o Renda Brasil.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.