Os sentidos do lulismo diante da barbárie

Cadê o nosso querido Zé Gotinha”, indagou Lula durante o discurso na última quarta-feira.

O personagem reapareceu segurando um fuzil no dia seguinte em imagem postada pelo deputado Eduardo Bolsonaro nas redes sociais. O Zé Gotinha foi originalmente criado para aproximar a população brasileira das campanhas de vacinação. O seu criador, o artista plástico Darlan Rosa, lamentou a associação do personagem com a pauta armamentista: “Era o vacina ou morra. E eu propus a quebra desse paradigma. Não se educa pela violência e pela imposição. A educação é pelo exemplo. E esse aí com a arma é péssimo.

A combinação de armas e vacina é a contraparte bolsonarista da decisão do ministro Edson Fachin que anulou as condenações contra o ex-presidente Lula. Isso porque, se o Zé Gotinha é o símbolo de um país que erradicou a varíola e a poliomielite por meio da vacinação, Lula representa o momento da história em que os brasileiros, sobretudo os mais pobres, conquistaram uma dignidade inédita. Bastou então que o petista retornasse ao palco de 2022 para que Bolsonaro se convertesse em militante da vacinação, enquanto o fuzil nas mãos do Zé Gotinha é o aceno a base radicalizada que precisa estar mobilizada até o ano que vem.

Segundo os dados da Arquimedes, a consultoria que monitora as redes sociais no país, as notícias sobre o ex-presidente Lula alcançaram 2,5 milhões de comentários no Twitter após a decisão de Fachin. Até o Big Brother Brasil, fenômeno de interação nas redes sociais, ficou atrás e gerou 1,8 milhão de posts no mesmo dia, a véspera do paredão falso do programa. Alguns internautas brincaram que Lula estaria retornando de um paredão falso para concorrer novamente. Mas, se for o caso, diferente da participante Carla Diaz que voltou ao BBB e parece confusa com as informações que tem em mãos, o ex-presidente Lula revelou uma lucidez assombrosa quando discursou por quase três horas no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo (SP).

Na ocasião em que criou o Zé Gotinha, Darlan Rosa conta que elaborou “um projeto simples de propósito, duas bolinhas, a bolinha de cima é a gota e a de baixo são os braços e as pernas. Um desenho fácil de ser compartilhado e carismático.” O discurso de Lula também foi assim, didático e ainda assim profundo, comovente, em que o petista explicou o momento atual do Brasil com imagens sintéticas do consumo, do trabalho, do churrasco e da cervejinha. “O auxílio emergencial só pode acabar quando a economia estiver gerando emprego e renda, e isso não precisa ler Marx ou Delfim Netto para entender”, afirmou Lula enquanto o governo aprovava uma nova rodada do auxílio emergencial de apenas 200 reais. Se o ex-presidente mal falou de ataques a democracia e assim evitou a principal retórica de esquerda ao menos desde 2018, é porque sabe, melhor do que ninguém, que não foi porque a esquerda passou a se preocupar com a democracia que então abriu mão da economia, e sim porque deixou de fabular uma política econômica própria que passou a preencher o vazio com a defesa mais ou menos abstrata da democracia.

Em lugar do discurso quase envergonhado que sustentou nos últimos anos sob a sombra do antipetismo, a esquerda se viu rejuvenescida perante Lula, “a encarnação viva, numa potência de corpo única, do conflito entre capitalismo e democracia em um país periférico e incompleto”, como disse Tales ab’Saber, autor de Lulismo: carisma pop e cultura anticrítica. O retorno do ex-presidente prepara a recomposição da identidade política, ideológica e cultural da esquerda brasileira para que a mesma, enfim, se reconecte ao sentimento da população que sofrerá com a redução do auxílio emergencial, o mercado de trabalho arruinado e a inflação de alimentos. Para ganhar a eleição em 2022, Lula está ciente de precisa aproveitar o momento em que a conjuntura acirra o desemprego e a queda da renda para firmar suas posições progressistas e as memórias do seu governo onde protagonizou importantes avanços na infraestrutura social do país.

Assim como o Zé Gotinha revolucionou a vacinação ao superar o “vacina ou morra”, Lula também quebrou o paradigma do “cresça ou distribua” que dominava a política econômica desde a teoria do bolo dos militares (“fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”, como dizia Delfim Netto). Em vez de crescer para só então distribuir, Lula, em primeiro lugar, aumentou o salário mínimo e distribuiu renda via programas sociais como o próprio fundamento do modelo econômico do lulismo, e foi assim que dinamizou o mercado interno e então multiplicou o crescimento econômico. Como bem notou o economista Ricardo Carneiro, “o peso do mercado interno no desenvolvimento brasileiro não constituiu uma novidade, o que sim constituiu algo de novo foi o novo papel da melhoria da distribuição de renda”.

É certo que Lula não vai encontrar o mesmo Brasil onde outrora forçou alternativas segundo o princípio lulista de que “há uma zona cinzenta de interesse econômicos comuns entre os trabalhadores assalariados e os empresários”, como anotou Lincoln Secco em A História do PT. Os governos Temer e Bolsonaro desconstruíram parte do arcabouço institucional que sustentou o social-desenvolvimentismo do petista, a exemplo da descapitalização do BNDES, a privatização das subsidiárias da Petrobrás, o desfinanciamento da pesquisa científica e a erosão das empreiteiras na esteira da operação Lava Jato, além de novos limites institucionais como o Teto de Gastos. Não é menos certo, no entanto, que a pandemia modificou os preços relativos dos temas da agenda pública, basta notar que o investimento em saúde pública e o papel do Estado na coletivização dos riscos sociais, por exemplo, se tornaram consensuais. Em outras palavras: o Zé Gotinha se tornou mais amado do que nunca, e isso, afinal, consolida e fortalece a agenda petista.

Numa das cenas mais icônicas da pandemia, o Zé Gotinha se esquivou do aperto de mão do presidente Bolsonaro em respeito às regras de distanciamento social. Já em 2022, o Lula, o Zé Gotinha e o imaginário social que representam estarão de mãos dadas e, desta vez, sem fuzil.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

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