Por que Sanders é o único que pode derrotar Trump?

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Se começo o texto com uma pergunta tão categórica, é porque as primárias do Partido Democratas giram basicamente em torno disso: entre 60 e 65% dos democratas afirmaram que a capacidade do presidenciável de derrotar Donald Trump é mais importante as suas propostas propriamente ditas.

Para quem acha que isso é de menos, Meagan Day e Matt Karp bem lembraram que nas eleições de 2004, em que estava em jogo a reeleição de George W. Bush, menos da metade dos democratas disseram a mesma coisa.

Além de destacar a viabilidade política do candidato, responder por que Sanders é o único democrata que pode derrotar Trump também nos dará a chance de discutir as principais características do socialista democrata (como ele mesmo se denomina) que está convulsionando o país mais poderoso do mundo.

1- A mitologia de Sanders

Se há uma característica que aproxima Sanders de Trump — e justamente por isso o torna tão competitivo — é que o democrata está construindo um mito sobre a nação americana.

Por “mito”, deve-se compreender uma narrativa — tão facilmente inteligível quanto emocionalmente poderosa — que fixa uma representação sintética do país. Seu objetivo não é simplesmente explicar o presente, mas também produzir formas de consciência e afetos que o modifiquem.

Trump bradou que as elites liberais e bem-educadas (the coastal elites) administraram mal o país e, pior do que isso, degradaram os valores morais do cidadão médio americano (the real americans). Já Sanders traduz o conflito como a luta dos 99% contra o 1% em que as elites financeiras concentram a riqueza produzidas pelos trabalhadores do país.

Em comparação aos demais democratas, o jornalista David Brooks do New York Times escreveu: “Sanders é o único candidato contando um mito consistente. Bloomberg, Joe Biden, Pete Buttigieg e Amy Klobuchar produzem bons argumentos, mas não os organizam numa visão de mundo atraente como um mito. Você pode olhar para eles, mas não verá o mundo através dos olhos deles.

Em pleno século XXI, descobrimos que as consequências da globalização incluem desde o deslocamento das cadeias produtivas até a ameaça econômica, a incerteza subjetiva e a perda das referências simbólicas. Enquanto Trump se valeu do medo como elemento de coesão ao frisar os perigos da modernidade e trabalhar a noção narcísica de “comunidade nacional” para pregar um corte para uma felicidade utópica no passado (Make America Great Again), Sanders mobiliza afetos positivos que não deixam de levar em conta as promessas de igualdade inscritas na promulgação da constituição americana, mas dizem respeito sobretudo à esperança no futuro. Além de mais saúde e educação, os discursos do democrata preconizam uma nova relação entre os possíveis e a imaginação política que vai muito além do bordão yes, we can.

Sanders compreendeu que para convencer os eleitores — tanto os que votaram em Trump quanto os que estão indecisos — não basta expôr os argumentos de forma lenta e paciente. Mais do que isso, é preciso desenhar um horizonte político que mobilize valores, afetos e formas de entender e estar no mundo. Eleição é disputa de ideias, e também competição simbólica: deve-se demonstrar mas principalmente convencer e apaixonar. Em 2016, ao passo que Hillary Clinton alardeava os feitos da gestão Obama (nada muito diferente do que tem feito Joe Biden), foi Trump quem apostou em símbolos desprezíveis da alt-right com força de engajar emoções e sentimentos numa proposta incivilizada.

Na bela afirmação da filósofa francesa Simone Weil, “quem é apenas incapaz de ser tão brutal, tão violento, tão desumano quanto o outro, sem contudo exercer as virtudes contrárias, é inferior a esse outro seja em força interior, seja em prestígio; e não se sustentará no confronto com ele.” Nenhum democrata entendeu isso melhor que Bernie Sanders.

2 — A revolução jovem de Bernie Sanders

Não seria incorreto dizer que Sanders, assim como Trump, apresenta-se como um populista. Resta, isso sim, diferenciar qual tipo de figura popular cada um constrói e porque isso será decisivo.

Trump entendeu a insatisfação que crescia no fundo da sociedade americana e se colocou na figura de líder no sentido mais próprio do termo: a unificação simbólica que cria uma significação estável e configura a identidade de todo um campo em torno de si. Já Sanders, também representa uma espécie de centro, sendo que esse não serve para magnetizar o campo democrata, mas para ser atravessado e assim cindir o foco personalista da candidatura. É assim, afinal, que funciona a sua campanha: numa retroalimentação entre eleitorado e candidato bem representado no lema da campanha Not me, Us. Uma convergência de forças que não encontra síntese em sua figura, mas a espeta numa linha contínua de solidariedade — não por outro motivo, “Sanders” é a expressão eleitoral das lutas do Ocuppy Wall Street, Fight for $15, Black Lives Matter e #MeToo.

Ao mesmo tempo que seu concorrente democrata Joe Biden possui toda sorte de bilionários entre seus doadores (inclusive mais do que o próprio Trump), o senador de Vermont recursou dinheiro dos Super-PACS — famosos fundos que recolhem contribuições de bilionários e distribui para campanhas selecionadas — para então apostar em eleitores comuns. Se Trump pretende revalorizar o homem comum norte americano, é Sanders quem verdadeiramente faz isso à medida que sua campanha é financiada pela população propriamente dita.

Para se ter uma ideia, mais de 1,4 milhão de pessoas contribuíram para sua campanha em 2019 com doações média de 18 dólares por pessoa, o que inclui doação de professores, vendedores, atendentes de supermercados, operários, garços, enfermeiras… e jovens — muitos jovens — desde os que pedem dinheiro aos pais até os que ganham trocados em empregos instáveis. Para implicar essa juventude na campanha, Sanders lançou o aplicativo BERN pelo qual os voluntários se auto-organizam e atuam, de modo descentralizado, em visitas a domicílios, multirões de telefonemas, reuniões com outros voluntários, compartilhamento de informações, crowdfundings, etc.

Mas por que essa contaminação da juventude pelo fenômeno Sanders pode ser decisiva? Nos Estados Unidos, o percentual dos que não comparecem às urnas gira em torno de 50%. Conquistar esses votos, portanto, é fundamental para a vitória eleitoral em 2020 — e o que nos enche de esperança é que a maioria desses são jovens (cerca de 35% dos não votantes tem entre 18 e 29 anos). Considerando que o democrata apresenta uma plataforma radicalmente inovadora, não é demais pensar que pessoas improváveis irão às urnas numa onda alimentada pelo contágio coletivo e pelo impacto das suas propostas na vida dos jovens trabalhadores e estudantes americanos.

Assim como os imigrantes vindos em massa após a 1ª Guerra Mundial significaram um novo eleitorado que viabilizou a vitória de Franklin Roosevelt e seu New Deal, o resgate dos jovens pode acarretar a vitória do candidato com o programa mais radical desde então.

3 — O populismo econômico de Sanders

À diferença dos demais presidenciáveis democratas, Sanders aposta alto na polarização com Trump por meio da economia. Na eleição passada, ao contrário, a oposição se deu entre, de um lado, o establishment representado por Hillary Clinton (Nafta, luta contra o terrorismo, aliança com Wall Street e quase nada sobre o offshoring dos postos de trabalho norte-americanos). E do outro, o populismo de Trump que associava programas de reindustrialização e protecionismo comercial com a ativação do Estado-Nação como patologia social-paranóica para culpabilizar os imigrantes e nutrir afetos familiaristas, identitários e excludentes. Segundo pesquisa do Pew Research Center, 25% dos não-votantes disseram que não foram às urnas porque tinham aversão a qualquer um dos candidatos (esse mesmo percentual foi de 13% em 2012 e 8% em 2008).

Sem abrir mão das pautas identitárias e raciais que marcaram as gestões de Bill Clinton e Obama, Sanders realiza uma reflexão transformadora sobre a economia com capacidade de implicar as classes empobrecidas. Se é verdade que a economia americana está bem tomando por base os índices macroeconômicos (inflação, taxa de juros, desemprego, etc), o democrata retruca que os salários nominais cresceram quase no mesmo ritmo que a inflação; as mortes por armas de fogo atingiram o maior nível em 20 anos; a rede de proteção e o acesso aos serviços públicos pioraram.

Fazendo assim, Sanders ataca o calcanhar de Aquiles que realmente mina a confiança da população em Trump, muito mais efetivo do que as críticas que vendem Trump como um bufão, antirrepublicano, misógeno ou qualquer outra definição que, corretas em si mesmas, não levam muita gente a sair de casa às urnas. O pouco apelo popular galvanizado pelo recente processo de impeachment contra o republicano, por exemplo, é uma prova de que a democracia e outros temas como aborto e direitos das minorias não tem mais tanta força de punch. Em seu lugar, o socialista desmoraliza o atual contexto econômico ao contrapô-lo ao horizonte de políticas sociais que os Estados Unidos nunca teve — plano de saúde e acesso ao ensino superior gratuitos; cancelamento das dívidas de financiamento estudantil; aumento dos impostos sobre as grandes fortunas; reforma do sistema financeiro.

Como se sabe, na última eleição foram decisivos os condados que votaram em Obama em 2008 e 2012 e então mudaram para Trump em 2016. O que também deve ser levado em conta é uma pesquisa da American National Elections Survey que mostrou como os eleitores que trocaram Obama por Trump eram mais “preocupados com a situação financeira atual” do que os demais eleitores. It’s the economy, stupid.

Se Sanders provocou um desrecalque em relação a ideias e termos como socialismo, foi porque esse foi o nome que ele deu a recusa da austeridade (e também da guerra, do racismo, do sexismo e da homofobia). Antes que os mais conservadores do Partido Democrata se assustem com a sua inspiração socialista, é bom que se diga: o programa de Bernie Sanders não atenta contra as normas gerais de funcionamento da economia liberal (não à toa ele insiste que o seu socialismo é típico dos países nórdicos), mas defende que os americanos possam assumir riscos no livre-mercado com uma rede de proteção. It’s the economy too, stupid.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.